Os primeiros 10km

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No ano novo de 2017 defini como objetivo correr 10km. Queria fazê-lo antes da cirurgia maxilofacial e, assim, há um ano atrás saltitava entre empregos novos e treinava para correr 10km. Queria estar com os músculos em forma para que umas semanas de sossego na recuperação da cirurgia não me deixassem sem ponta de resistência. Completar os 10km pareciam-me uma boa meta.

Mas entretanto, chegadita a Portugal, pegou-se-me tudo! Tudo, pessoas! Desde a bela da gastroenterite, à gripe e a toda a bicheza que andava pelo ar. Lembro-me, inclusive, de ver o Salvador Sobral ganhar a Eurovisão entre vómitos e uma dor insuportável de barriga… Memórias poéticas!

Como está bem a ver, com isto não havia energia, muito menos vontade e muitas desculpas para ignorar as corridas. Os 10km não aconteceram.

Também não aconteceram na corrida de S. Silvestre e a minha preguiça fazia-me caminhar para nunca cumprir o objetivo. Até que surgiu por aí um desafio. Eu disse que sim, muitíssimo bem intencionada. Comecei a fazer Cross-trainning uma vez por semana e durante um mês senti-me muitíssimo bem encaminhada.

Até que os ensaios do grupo de teatro se intensificaram, o trabalho ocupou-me noites e o tempo que me sobrava era para sofá e séries, não para corridas!

A uma semana da corrida o mais inteligente era desistir. As noites anteriores à corrida eram de espetáculo e eu não treinava há mais de um mês. Bem… se as corridas para o comboio e para o metro contarem, até treinei! Diariamente!

Já me imaginava a ter caimbras, roturas musculares e enfartes. Nunca se sabe! O médico disse-me para fazer um eletrocardiograma antes destas aventuras e eu deixei a receitar passar a validade. Avizinhava-se o terror por trás do meu medo de falhar.

A única coisa que me puxava para cima era o orgulho. O desafio era em equipa  e dar parte de fraca assim, não é bem o meu estilo.

Deitei-me depois das 2h, mas antes das 9h o pequeno almoço estava tomado e o equipamento vestido. Rezava até aos santinhos em que não acredito, que os loucos 4km que corri naquela semana, se multiplicassem como pães.

Sempre ouvi dizer que o que não tem remédio, remediado está. No meio da multidão, lá fui eu também. Até que aos 4km a minha tensão arterial baixou e eu precisei de parar. Caminhei um minutinho, enfardei umas bagas e uns frutos secos e continuei. Até ao fim. O percurso era muito fácil e completei o desafio em 58 minutos. Não é que seja tempo de velocista, mas também não é de tartaruga. As dores já se foram e agora estou cheia de vontade de mais!!! Doidice. Esta cabeça é pura doidice!

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Planos para 2018

Não percebo a ideia do calendário dizer que já é março. Não é, pessoas, não é março. Já comprei voos para as férias de verão e isso será daqui a uma eternidade. Há uma grande festa por organizar e ainda falta uma eternidade. Tenho mil ideias para pôr em prática em casa e espero bem que falte uma eternidade até março porque, nesse caso, há demasiadas paredes em branco nesta casa.

Negações à parte, estou um bocadito assustada com esta mania do tempo passar rápido. Tenho passado 55 horas da minha semana em modo trabalho, com concentração elevada e desgaste prolongado. Esta intensidade varia entre uma felicidade desmedida por gostar tanto das várias tarefas e atividades da minha semana e um corpo de rastos. É verdade que a minha alimentação degradante e a falta de exercício têm potenciado este estado. Mas não se preocupem, nada temam, até daqui a um mês o trabalho é exaustivo, correrei 10km e a peça de teatro estreia. Coisita pouca!!

No entretanto, adorava escrever diariamente aqui. Com isto quero dizer que adorava prometer lamentar-me como se não houvesse amanhã de tudo o que não consegui fazer durante o dia, mas duvido que seja capaz de manter tal cadência. Por isso, a única coisa que prometo é que ao vir cá, será para lamentações. Espero que estejam bem com isso.

Por tudo isto, ouço em loop a música acima. Ela própria é um lamento, mas tem uma vibe tremenda e a voz do Veloso a trazer-lhe magia!

Há dois meses em casa

Uma casa nova é sempre um entusiasmo novo. Pensa-se no que se gosta, no que é mais funcional, onde se quer gastar dinheiro e onde não nos importamos de poupar. Lá em casa já temos tudo o que precisamos há dois meses. Entretanto topamos um ou outro ponto menos funcional e já andamos a planear alterações. Dominamos uma série de artes desconhecidas até então: desde a aplicação de candeeiros, aos  furos na parede e em madeira, ou mesmo como é que se abre um casquilho de uma lâmpada.

É pena não restar muito tempo livre para mais. Há uma ou duas paredes a pintar, um quarto cheio de tralha por arrumar e muito por otimizar. Mas falta o tempo. Não dá para saltar as tarefas básicas de roupa, comida e limpeza. E isso é uma verdadeira chatice e consumo de tempo. Enfim, adultez!

Há vontade de encher paredes de ilustrações e fotografia. Temos algumas coisas pensadas, mas falta a ação. Deixo-vos um pequenino vídeo dos locais onde passamos mais tempo e onde, nitidamente falta muita vida e alguns móveis. Mas lá chegaremos!

O temporizador e a lavandaria

Morar num T1 é giro, fácil de arrumar e mais provável de não ser necessário um berro para comunicar de uma ponta da casa para a outra. Mas, há um grande mas. A tralha que inevitavelmente se acumula entre cozinha, escritório e lavandaria co-habita com o lugar onde se pára para um bocadinho de lazer.

Agora já não é nada assim. Já não tenho o estendal escarrapachado em plena sala, que também é cozinha e escritório. Agora, está cada coisa no seu lugar e o caos da roupa fica na lavandaria. Enfia-se tudo para lá e pronto, assunto resolvido.

Por outro lado, é péssimo para comunicar (às vezes nem com bons berros a coisa vai lá) e para limpar, uffff, a tarefa é bem árdua! Mas não pensemos nisso. Até porque há outras facilidades. Há espaço para caixotes que separam a roupa e facilitam as lavagens. Espaço para detergentes, roupas lavadas e dobradas e mesmo para as outras, sem dobrar. O estendal arruma-se junto ao teto e voilá, o espaço multiplica-se. Adoro a lavandaria.

Nos últimos dias tenho-a adorado ainda mais. Decidi experimentar a o temporizador da máquina de lavar roupa. Como não temos tarifa bi-diária no plano de eletricidade, achava um bocado inútil. Mas não é. Pondo a máquina a lavar de forma a terminar na altura em que chego a casa, não há preguiça, cansaço ou maleita que me possa desculpar. Não há “ooohhh, já não há tempo para lavar”, nem “estou tão cansada”. A roupa está lavada e não pode ficar noite adentro encolhida e molhada. E sabem que mais? É mesmo eficiente! Obriga-me a apanhar a roupa do estendal. Depois, como não vai ficar para ali ao monte, a dobrá-la. E estou, FINALMENTE, credo, quase sem roupa por lavar. Haja milagre, milagrezinho!

Já disse que adoro a lavandaria? E que o temporizador da máquina é a melhor invenção do século?

Transformar um candeeiro de teto

Há uma regra básica de decoração que está por esta internet fora: nunca comprar um ambiente completo. Isto é, se nos apaixonarmos pela decoração de um espaço numa loja, nunca devemos dizer que é para desmontar, embrulhar e entregar tudo. Porquê? Antes demais porque as áreas de um desses espaços nunca são as mesmas do que as da nossa casa. Depois porque a decoração deve dizer alguma coisa aos donos da casa e isso só se consegue com muita paciência, tempo e dedicação. Quando esta regra é trespassada, o resultado é, geralmente, não se gostar muito daquilo onde gastamos dinheiro, mais ou menos como se fosse a casa de outra pessoa qualquer.

Lá em casa as paredes ainda estão muito vazias. Ainda não há quadros nas paredes, nem prateleiras, nem o diabo a sete em ideias que tenho na cabeça. O melhor de tudo é que quando as vou pôr em prática tenho novas ideias, percebo que fazem muito mais sentido e me fazem gostar ainda mais do espaço.

Capturar

Tinha este candeeiro da Conforama na casa de banho e adorava. Mas havia um problema: o teto, em gesso, já tinha levado com outros candeeiros e estava bem esburacado. O candeeiro novo não disfarçava as mazelas e só pintando chegaríamos a bom porto. De planos para pinturas estamos nós cheio. Por isso, compramos uma solução mais simples e barata.

Mas restava um candeeiro giro, giro. Foi aí que me cruzei com uma imagem que me fez saber exatamente o que iria fazer com ele: ia transformá-lo num candeeiro para a mesinha de cabeceira.

A luz para as laterais da cama estava planeada ficar fixa às paredes ou vir do teto. A segunda opção ficou por terra quando demos conta da trabalheira da coisa. Enquanto que a primeira opção estava só a ser adiada.

Compramos uma lâmpada bonita com luz quente, um cabo com interruptor e pronto a ligar à corrente, encaixamos a coisa num casquilho (e a maravilha de compreender o funcionamento do casquilho?) e voilá!

E pronto. Está assim bonito… pelo menos para nós que somos um bocadito loucos. 😏

A felicidade encontra-se

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No outro dia, no café com uma amiga querida, falávamos sobre voltar a Portugal. A questão era se preferia viver na Áustria ou em Portugal e onde era mais feliz. Se país por país me é indiferente e se a distância não me traz grande mossa, há uma coisa que não é indiferente e eu só percebi depois do regresso. Chama-se língua. Sou fluente em inglês, desenrasco-me no alemão, mas a minha personalidade em português é diferente. Em português sou melhor a ouvir, sou melhor a falar, muito melhor a comunicar e a adaptar-me a situações novas e pessoas diferentes.

Percebi, então, que é em Portugal que sou mais feliz, não pelo mar, não pela proximidade, não pela loucura em que a minha vida se torna, apenas porque sou melhor a trabalhar e a ajudar em português. Essa é a realização que não se consegue por Skype e que o tempo não melhora o suficiente.

Há um conjunto de fatores que me fizeram perceber isto e nenhum deles foi o motivo para o regresso. Primeiro, os astros alinharam-se de forma a ir parar a um dos lugares mais bonitos que já vi, conseguindo um apartamento com todos os requisitos pedidos, mas onde as pessoas são avessas a estrangeiros. Avessas a ensinar, avessas a serem pacientes, avessas a integrar. Foi muito difícil encontrar trabalhos para o meu nível de escolaridade que não exigissem o alemão, mais difícil ainda trabalhos em que as pessoas permitissem relações pessoais transparentes, com avaliações e correções sempre que necessário. Eles acreditam no politicamente correto, eu acredito na tolerância, mas no melhoramento contínuo. Ali não era bem visto que eu falasse com um colega que estivesse a agir de forma errada, teria de sorrir e acenar, “Sorrir e acenar, pessoal”. Se também sou a favor de em Roma sermos romanos, há uma linha que cruza os meus valores e a forma como eu acredito no funcionamento de uma equipa. Consequência de tudo isto: demorei uns meses a começar a trabalhar e, no entretanto, compreendi que a minha felicidade depende do meu grau de cansaço ao final do dia e é, geralmente, proporcional.

Depois, no final de 2016, aprendido tudo o que a empresa onde estava me deixava aprender, comecei a precisar de mais. Batemos no mesmo problema da frustração e estagnação, difícil de ultrapassar com a escassez de trabalho para pessoas com o meu perfil. Defini como objetivo para este ano estudar algo novo ou encontrar um novo desafio profissional.

A cirurgia fez-me parar o trabalho anterior, a paragem forçou-me a decidir voltar e a reviravolta deu-se. Percebi o quão melhor podia ser na minha língua, todas as fichas apostadas funcionaram. As entrevistas em português e com portugueses corriam na perfeição e eu andava embalada com aquilo.

[Este texto parou de ser escrito neste ponto porque me encontrava num voo em noite de tempestade. Parei porque enjoei. Parei e não retomei porque se seguiram duas horas sem fim. Tive tanto medo!]

A verdade é que voltei e a realização em português faz-me acreditar que é aqui que sou mais feliz. É aqui e em português que a encontro. No final das contas, que é a felicidade que não uma sensação de conforto?

Dicas úteis sobre casas novas

Embora não seja a primeira vez que mudo de casa, às vezes é como se fosse porque o funcionamento das burocracias diverge de país para país. Se na Áustria a existência de eletricidade e de água nunca foi uma questão, aqui, a coisa tem outra dimensão.

Quando fiz a escritura, a casa tinha eletricidade, embora não estivesse em meu nome. Resultou no antigo dono pagá-la por mais umas semanas. Por outro lado, não tinha água nem internet. Como é que tudo se resolveu?

Eletricidade

Se a casa já foi habitada previamente, dá jeito ter os dados do antigo cliente. No caso de não ter, é necessário ligar para dois canais diferentes da EDP – comercial e distribuição. O primeiro para ter acesso ao código que identifca o contador e a residência, o segundo para contratualizar. Para fazê-lo é necessário ter o contrato de arrendamento ou a escritura.

Com duas chamadas e dois emails – um para o envioa do documentos, outro a confirmar contratos – a coisa resolveu-se. Depois foi só marcar uma hora, chatear alguém para indicar a porta e voilá. Ready to go, com débito direto e fatura eletrónica.

Água

Desta não me safei sem tirar o rabo da cadeira. Tive mesmo de ir à Câmara Municipal, dizer que queria água, mostrar, mais uma vez, a escritura e contratualizar o serviço. Pedi, delicadamente, ao senhor para que o pedido do débito direto fosse feito por email e ele aceitou. Por outro lado, os técnicos da água já não precisaram que ninguém fosse abrir a porta e disseram “se mora alguém no prédio, nós entramos”.

Internet

Tudinho por telefone, tal como a eletricidade – valha-nos as empresas privadas. Decidido o operador, foi ligar e negociar qualquer coisinha. O serviço já era melhor do que os demais, mas ainda se conseguiu uma pequena redução. Depois chateei, uma vez mais, para que indicassem a porta ao técnico e, em 10 minutos, o assunto resolveu-se.

Todos estes processos estão cada vez mais simples e isso é bom. Débitos diretos para todos os serviços, prevenindo o meu esquecimento. Falta, apenas, seguir as faturas e verificar se está tudo bem feito.