Pintar azulejo – parte 1

Entre as várias coisas chatas que uma casa usada e com alguns anos tem, estão os materiais usados na construção. Ora estão ultrapassados e fazem-nos descrer do sentido estético de quem os escolheu, ora não são de todo ao gosto dos novos moradores.

Na nossa casa, há uma série de problemas a esse nível. Os azulejos das casas de banho não são uma escolha muito feliz e na casa de banho mais pequena, a coisa tende a piorar drasticamente. É um dos assuntos a resolver no futuro, mas não foi o primeiro passo no que toca a reforma de paredes. Por outro lado, comecei pela lavandaria. Também ela com azulejos, situa-se numa pequena marquise com vista para o mar. O azulejo rosado, com muitos cantinhos partidos, muitos pormenores que saltam à vista, foi o meu primeiro alvo.

Comecei a pesquisar as opções que tinha. Há soluções para pintar azulejos para vários preços e objetivos. Se se tratar de uma casa de banho ou de uma cozinha, em que a humidade é uma constante, é necessário um acabamento que o permita. Já no caso da lavandaria pude optar pela solução mais em conta e pintar mais ou menos como se de uma parede em cimento se tratasse.

Lixar, melhorar o aspeto de rachadelas e buracos desnecessários, aplicar um primário que cubra tudo, inclundo as juntas, e adira bem ao azulejo, e terminar com um acabamento lavável, com as camadas que forem necessárias.

O trabalho está quase prontinho e embora todos os defeitos que um trabalho de amadores possa ter, o que mais me incomoda agora é a má pintura do teto, impossível de notar antes, o mau acabamento do isolamento da janela e a cor beje-sujo-velha do parapeito da janela.

Mas como até tenho uma certa paixão pelos defeitos da parede, não faz mal. É uma espécie de nostalgia por todas as horas passadas a transformar aquele espaço. Os “defeitos” são histórias quando feitos por nós e a decoração não vai deixar que nada se note. 

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10 Lições sobre Casas

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Gravei umas imagens da nossa casa na Áustria para guardar como memória futura e vou partilhá-las aqui, também. Mas enquanto o vídeo não se edita sozinho, venho contar-vos as 10 lições que aprendi com as casas austríacas e com a nossa em particular. 

  1. Uma casa tem ser pensada e otimizada para ser funcional.

    Palminhas para os austríacos que não decoram casas como nas revistas, que não queirem saber da opinião do vizinho e que, acima de tudo vivem as casas à maneira que lhes apetecer.
    É verdade, eu também gosto de ver imagens no pinterest e nas revistas de decoração, mas eu não quero uma casa dessas. Não quero uma casa em que os livros estão escondidos porque criam confusão na casa. Não quero uma casa cheia de armários no corredor se é na entrada que deixo os casacos. Não quero as coisas certas nos sítios errados porque eu sou caótica e o resultado é só um: caos.

  2. Adoro nenhum tapete e nenhuma cortina.

    Torna-se tão mais simples de limpar, tão mais simples de arrumar e uma tralha a menos para lavar. É verdade que tapetes e cortinas não são só caprichos, têm função e é por isso mesmo que as vai haver na nossa próxima casa. O chão em madeira bate palminhas por não ser tão esburacado com cadeiras e tralhas várias que caem ao chão em zonas de refeição e trabalho. Já as cortinas, só vão existir para que os livros e a roupa não desbotem em meia dúzia de dias.
    A questão da privacidade é mania portuguesa: tanto de olharmos para a vida dos outros, como de acharmos que há uma certa presseguição em olharem para dentro das nossas casas. Há poucas coisas mais bonitas do que olhar pela janela e ver o dia nascer e ter luz natural. Deviam experimentar!

  3. É possível viver sem vassouras.

    Foi uma opção gira. Por um lado poupamos dinheiro, por outro evitamos mais poluição ambiental ao irmos embora, e ainda manias de estarmos seeeempre a limpar. O aspirador funciona bem, bem. É só descomplicar e é tudo possível.

  4. A televisão não é assim tão essencial.

    Numa altura em que tudo está na internet, justifica-se menos (ainda) a necessidade de televisão. A informação explode por todo o lado, o entretenimento também. Como o nosso alemão não era brutal, preferimos não fazer essa compra e foi das melhores decisões de poupança. Se a tivessemos comprado, muito provavelmente estaríamos a enviá-la para Portugal e a pagar um balúrdio por isso.

  5. Um excelente ferro de engomar é imprescindível.

    Não foi uma realidade nos últimos dois anos. É desesperante passar a ferro com um ferro de 20 euros. É verdade que prefiro esse desespero a arrumar a cozinha depois do jantar, mas ainda assim terrível. Vamos, por isso, abandonar o nosso ferro, dando-lhe uma casa nova, e vamos adquirir uma coisa decente num futuro próximo.

  6. Sabiam que a roupa pode congelar?

    Eu sei que à partida pode ser óbvio, mas aqui a pessoa, habituada a pôr o estendal na varanda, só repetiu o processo num dia de temperaturas negativas. E voilá, quando regressei à varanda, tinha pedras no estendal. Mas, descobri também, que ao colocar posteriormente dentro de casa, a roupa secou mais rápido. É verdade, a mudança de temperatura faz com que isso aconteça e, aparentemente, é uma estratégia que os austríacos usam (ou usavam antes das máquinas de secar).

  7. O soalho em medeira estraga-se com água, mas o arroz ajuda.

    Antes de sabermos que o clima austríaco era bipolar, saíamos de casa e deixávamos a janela grande da sala escancarada. Até ao dia em que saímos com sol e regressamos com uma inundação. Enxugamos muito bem e notamos que as juntas ao pé da janela estava a escurecer e o verniz a descascar. Vimos a nossa caução a ser posta em causa. Mas nada aconteceu, reguei o chão com arroz e a coisa melhorou. Não ficou perfeita, mas secou bem e clareou um bocadinho. A senhoria nem notou!

  8. Deixar os sapatos na entrada é muito mais confortável.

    Ontem, mostrei a casa a uma amiga que mora na Dinamarca e, antes de entrar, perguntou-me se queria que tirasse os sapatos. Achei mesmo interessante que ao mudarmos para países com hábitos diferentes, sejamos contagiados por eles. O dos sapatos é um desses, entranha-se e já faz confusão não o pôr em prática. Faz mesmo confusão outras pessoas não fazerem o mesmo. Mas, também é verdade, que as nossas casas não estão otimizadas para isto. Os ambientes são mais frios e pouco convidativos a pés descalços.
    Sigo algumas bloggers que têm este tipo de hábitos em Portugal e a ver vamos se lá em casa o conseguimos implementar (mas só depois de estar tudo limpinho).

  9. O melhor aquecimento do mundo é o que vem do chão.

    Ter piso radiante e, consequentemente, o chão sempre quente, permite um conforto que não senti antes: pés quentes e cabeça fresca. É pena não ser comum por cá e ainda ser muito caro implementar.

  10. Quero um forno Miele em todas as casas onde morar.

    Eu não conhecia a Miele, vivia feliz na ignorância quanto a marcas de eletrodomésticos. Mas, caramba, fui parar a uma casa com eletromésticos de topo: todos da Miele. A marca é cara, mas apresenta uma qualidade e um design muito bem equiparados e resistentes. De maneira que acabei a escolher os eletromésticos da nossa casa nova todos dentro de um orçamento viável e decente, mas um forno Miele e estou tããão contente!!!

O parto complicado do Crédito à Habitação

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Pensamos em comprar uma casa muito antes de pensarmos quando voltaríamos a Portugal (podem ler aqui e aqui). Um ano antes da coisa acontecer, fui abordando a situação com o banco para perceber como é que se procederia se comprássemos a casa trabalhando fora do país.

Foi-nos explicado tudo direitinho, quais os documentos que precisávamos, fizemos simulações preliminares e a informação era favorável, exceto de um ou outro ponto burocrático sob o qual não valia a pena pensar antes de ter o negócio a ser concretizado.

Sabia que éramos clientes interessantes do ponto de vista bancário. Não pedíamos a totalidade do valor dos imóveis que pensávamos comprar, não pedíamos valores absurdos, tínhamos salários anuais interessantes, ambos qualificados em áreas tecnológicas e, acima de tudo, tínhamos 25 anos. O risco de clientes como nós, no ponto de vista bancário, é mínimo. O próprio banco reconhecia isto e a relação que se começava a construir era interessante.

Corria tudo muito bem até ao dia em que, ao ver o negócio tornar-se cada vez mais uma realidade, fui falar com a gestora bancária com quem mantinha contacto, e ela estava de férias. Então, fui atendida por uma colega que se inteirou do caso e pormenorizou as burocracias. Obrigavam-nos a traduzir o contrato de trabalho num tradutor oficial e reconhecido pelo consulado. A coisa ficar-nos-ia por mais de 1000 euros. Sabíamos que outros bancos (e mesmo outros balcões) facilitavam o processo. Foi aí que exigi que resolvessem a situação internamente. E assim foi, como contei AQUI.

O processo começou cinco dias depois de ter assinado o contrato de promessa compra e venda. No entanto, era agosto e a informação do gestor da Alemanha chegou cá seis semanas depois, em vez de duas. Quando chegou, uma vez mais, a primeira gestora de contas estava de férias e o processo foi entregue noutras mãos. Caiu nas mãos erradas. Passei-me com a falta de profissionalismo da senhora desde o primeiro momento, mas fui uma pessoa civilizada e crescida: mantive-me serena e acreditei que era só choque entre a minha personalidade e outros pontos de vista.

No final das contas eu estava certa. Mesmo depois de lhe explicar que poderíamos adiar o prazo do contrato de promessa, ela garantiu-nos que tudo seria tratado dentro do prazo. Marcou-se a escritura e uma semana antes recebi os documentos a assinar. Quando os abri, percebi que o caldo estava entornado. O spread que a senhora queria que eu assinasse era 2% superior ao das simulações. Atenção que não era o spread que pagaríamos a curto prazo, ainda assim eram as condições com que eu tinha de levar daqui a uns anos porque, teoricamente, era a única hipótese.

Falei com a senhora, mantive o meu tom calmo e paciente e ela tentou fazer-me de burra. Tudo menos isso, meus amigos. Se eu não sei, eu assumo, mas depois de estar informada, procurar saber e até pedir aconselhamento em paralelo, não me façam passar por burra. Estava tão passada, tão passada, que a coisa escalou. Isto chegou a ouvidos de pessoas várias e quando dei por mim, tinha o telefone do gerente, chefe da senhora que tratava do caso, e carta branca para lhe ligar mesmo à hora de jantar.

Foi o que aconteceu. E, pronto, o senhor que reconhecia todas as asneiras feitas, que reconhecia o quão bom negócio isto era para o banco, mexeu cordelinhos e mudou tudo.

No final não ficou tão bem como podia, estamos a pagar mais juros do que pagaríamos se tivéssemos mais um mês ou dois. Mas era isto ou pôr em risco perder o negócio e o interesse por parte do vendedor. Desse lado estava muito mais dinheiro em risco e, por isso, decidimos prosseguir desta forma. Foi uma questão de medir os riscos e perceber quais as consequências mais favoráveis.

Foi uma semana sem fim e uma (muito) má experiência com a falta de profissionalismo, com a confusão do que é pessoal e do que não é.  Sou um bocado intransigente com isso. Mais piora quando acham que sou uma miúda e me tratam com paternalismos, acham que não compreendo. Bem, enquanto considerar que a falta de informação ou a falta de desenrasque não sejam coisas que me faltem, não vou sossegar enquanto tiver argumentos racionais.

No final das contas, o banco conseguiu que eu não mudasse (por enquanto) de balcão, que não apresentasse uma reclamação por todas as vias possíveis e imagináveis. Mas, ainda assim, vamos perder um pouco mais de dinheiro do que perderíamos se tudo fosse bem feito. Mas não perdemos um bom imóvel, a preço justo, nem a entrada que demos por ele.

Esta história é um resumo do que eu considero ser uma sociedade civilizada: comprar as guerras que mais fazem sentido, valorizar e ter consideração o esforço humano posto na correção de erros e, acima de tudo, resolver o que quer que seja sem perder um tom calmo e ponderado. É difícil, mas é possível. 

Há plantas!

Tenho para mim que uma casa só adquire o estatuto de lar quando inclui plantas. Essa casa pode não ter móveis, eletrodomésticos, pode até não ter mais do que o chão para sentar, mas com flores e verdes torna-se logo um bocadinho mais pessoal, mais meu, mais aconchegante.

A minha casa nova está cheia de produtos de limpeza e lá pelo meio, há também, verdes e flores!

Casa comprada!

Está comprada. E eu estou tão feliz. É assim como que um projeto concluído, melhor do que o fim de uma tese. Se o fim da tese é um alívio, um deixem-me fugir que nunca mais me apanham por estas andanças (ainda que a opinião mude mais tarde), isto é um fim com sabor a começo.

Os últimos tempos têm sido sempre assim, com a adrenalina no topo, com muitas coisas a começar. Com muitos projetos bons, desafiantes e grandes em mãos, com muitas coisas que combinam comigo e que me fazem crescer. Esqueçam a altura porque a verdade é que tenho crescido a um ritmo de muitos centímetros por semana.

Tem sido tudo um grande desafio. Com o Pedro à distância, tudo é resolvido comigo, tudo passa por mim. E se não é a situação ideal para mim, também não o é para ele que queria estar por cá, ajudar e viver mais de perto tudo isto. Mas não consigo deixar que as coisas esperem, não consigo e não faz sentido dessa forma. Então, hoje, depois da escritura, descrevi tudo o que me lembrei. Desde a quem estava, onde estava, ao tempo que demorou e ao que foi falado. A descrição foi tão pormenorizada que não há como que a ideia seja só virtual, tornou-se quase palpável e isso é bom.

Depois fui deixar um bonito ramo de flores, que me foi gentilmente oferecido, ao apartamento para que não ficasse tão vazio. E, sabem, está cada vez menos vazio. Pelo menos na minha imaginação.

Meios e fins

Daqui a pouco vou assinar papéis, muitos papéis. Daqui a pouco esses papéis serão lidos e é o tipo de situação em que os fins justificam os meios. Quero muito comprar a casa, mas os papéis que falam de hipotecas e crédito à habitação dão cabo de mim. Fico ansiosa ao lê-los, sinto-me pura e profundamente roubada, enganada, aldrabada. Não há nada de bom ali escrito, não há nada bom em escrever que se paga um determinado valor quando no final das contas esse valor é muito mais elevado. Ler isso e assinar, concordando com o que está lá escrito, quando não concordo, quando não combina comigo aborrece-me. Começo a ficar com calor, a hiperventilar.

Ao ponto de ontem me ter recusado a reler os documentos. Confiei em quem os leu, em quem os reviu e não reli. A única forma de concluir o processo é assinar e eu assinei, contra todos os meus instintos.

Daqui a pouco vão ler e ou começo a assobiar para o ar, sorrindo e acenando, como se nada se passasse comigo, ou hiperventilo. Juro que não compreendo como é que, em certa altura, toda a gente pedia créditos de forma leviana. Não compreendo.