Já posso comer e QUERO SUSHI

Um mês e meio depois da cirurgia fiz uma radiografia e fui a uma consulta com o cirurgião. Novidades boas? Claro! Já tenho ordem para comer quase tudo (mais um mesito para coisas mais duras, tipo côdeas de broa e bifes). Mas aquilo que mais me anda a arreliar é o sushi. Tem me apetecido, mas comer sushi engolido, sem mastigar e sem misturar os sabores todinhos na boca não dá. Portanto, pessoas, isto é tudo o que me vai na cabeça:

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Cirurgia Ortognática | O mês antes

Antes da cirurgia procurei toda a informação que encontrei na internet sobre o tema, sobre a preparação, sobre a cirurgia propriamente dita, antes e depois, alimentação e tudo o que possam imaginar. Encontrei de tudo: informação ótima que me permitiu consciencializar do processo, informação muito ambígua e verdadeiro lixo. A verdade é que nestes processos tudo depende do caso e das variáveis em causa. De pessoa para pessoa, médico para médico, cuidado para cuidado, tudo faz variar.

Uma semana depois posso dizer-vos que está a correr tudo às mil maravilhas e que me pareço um exemplo de um bom caso. Então, e à falta deste tipo de informação em Português  (DE PORTUGAL), decidi gravar tudo numa série de quatro ou cinco vídeos que partilharei ao longo dos próximos meses.

Hoje, deixo o primeiro, gravado durante o mês anterior à cirurgia.

Se houver sugestões ou questões, escrevam um comentário, que terei em consideração.

 

O quinto e o sexto dias 

Ontem foi um dia bom. Senti-me consideravelmente melhor e saí de casa por várias horas. Já não tenho a cara tão enorme e a pressão do edema sobre a pele tolera-se muito bem. No entanto, hoje, que parei com o anti-inflamatório, a coisa regrediu e tenho muita dificuldade em falar. Já enjoei todas as papas e continuo a sonhar um um hambúrguer. Não há internet e ligaram-me agora dos recursos humanos de uma empresa. Deixei uma boa primeira impressão maravilhosa ao falar sem dizer qualquer “p”. Está a ser um dia mesmo em grande!

Ter a boca fechada é…

Dois dias a comer e já não aguento papas de fruta, confirmo que odeio todo o tipo de papas pré-feitas para bebé e chega de bolacha Maria triturada com cenas.

Venha um hamburguer de vaca com cogumelos, cebola frita e muito queijo derretido, um croissant misto prensado e banhado a manteiga, um hamburguer de frango, abacate e manteiga de amendoim. Quero batatas fritas em rodelas e batata doce no forno. Também não me importava de enfardar muito sushi, podem ser mesmo só peças de maki de salmão e muito molho de soja, mas como  ainda não me esqueci do sushi de há uma semana ainda passava bem sem ele. O hamburguer é que está mesmo a fazer-me falta.

72 horas

Este blog está enfadonho, tal e qual eu. Não há outro assunto e nem o meu corpo o permite. O cirurgião diz que por esta altura se atinge o topo do edema, o ponto máximo de balão. Passei o dia em puro desconforto. Talvez seja igual ao de ontem, mas parece-me pior, sempre pior. Sempre mais desagradável, sempre sem disponibilidade física ou mental para muito mais. Pensar por um bocadinho deixa-me exausta. A minha rotina passa por comer, lavar a boca, a pele, hidratar os lábios, aplicar gelo, descansar um bocadinho e recomeçar tudo outra vez, num total de 4 ou 5 vezes por dia. É isto. Tento ver uma série e adormeço pelo meio. Ah, haja uma definição para tédio e encaixa perfeitamente nesta descrição!

Se pensar a longo prazo costuma ajudar, desta vez não passa de uma miragem. A Grécia, a 19 dias de distância, parece uma loucura. Pensar em águas vulcânicas e na Acrópole é equivalente a imaginar-me com a minha cara normal. É algo indefinido no tempo. Algo que 72 horas de cama deturparam.

Bem, que o cirurgião tenha razão e que de amanhã adiante a clareza (e já agora a drenagem) abunde!

48 horas depois

Já estou em casa e já enchi o bucho: papa de bolacha, banana e laranja, sopa e leite com chocolate e açúcar. Não sinto um quarto do lábio e o restante está completamente dormente, ainda assim já sou capaz de beber líquidos por copos sem desperdícios. Já reconheço a posição de boca fechada e acho que em poucos dias sentir-me-ei mais civilizada. Afinal de contas, as noções que temos do corpo são sucessivos hábitos.

Ainda que já tenha energia e a cada hora note melhorias, questiono esta loucura. Não fosse a questão funcional da minha boca e nunca me teria metido por estes caminhos. Mais uma vez, o hábito, fazia reconhecer-me como era, sem dramas. Sem questões estéticas de fundo. E assusta-me a brutalidade de uma intervenção destas por motivos meramente estéticos.

Não acho que seja errado, nem correto. Acho é que interfere demasiado com uma vida para ser levado de forma suave. Assusta-me que este pós-operatório não seja dramático quando não há muito mais a fazer do que aguardar que o peixe balão que se instala nas nossas caras desapareça e leve consigo todo o desconforto.

Dizerem-me que está bem, que vou ficar mais bonita, que isto e que aquilo não me move, não me motiva, não me faz achar que vale o que quer que seja. Muito menos que valha o esforço de dormir de barriga para cima. Ou o problema é mesmo que há 48 horas que não durmo devidamente e parece-me tudo errado.

Estava preparada?

Era uma pergunta comum nas últimas semanas. Respondia sempre que não pensava muito nisso. Sabia os procedimentos e só tinha receio de stressar quando me dessem a anestesia.

O que aconteceu foi bem diferente. Stressei mais com o facto de ter de descer dois andares numa maca, enquanto estava completamente capaz do que com qualquer outra coisa. Mas a verdadeira consciência desceu sobre mim na noite seguinte. O desconforto era tremendo e só queria voltar atrás. Ainda bem que não pensei muito nisto, caso contrário, imaginar este desconforto era coisa para me pôr a fugir do hospital.

A boca inchada, o desconforto em respirar, os cabos que saem de dentro de mim, a incapacidade para estar muito tempo de pé e a alimentação a água com açúcar são coisas que me desmotivariam a repetir tudo isto.

É verdade que o resultado será, certamente, bom, que o cirurgião e toda a restante equipa dizem que foi uma cirurgia de sucesso. Mas e então, não dá para passar à frente esta fase chata que parece não ter fim? Tenho um sem fim de decisões por tomar e assim não há pachorra. Nem penso com a mesma clareza.

Depois de tudo isto, eu, que nem sou pessoa de me babar para a comida dos outros, vi a minha irmã comeu um hamburguer ontem e sonhei com a porra do hamburguer. Coisa que levará meses até comer. Não dá mesmo para voltar atrás?