Vou e levo só a câmara

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Estou com saudades da minha mochila. E da minha máquina fotográfica também. [Santa Catarina, Porto, 2016]

Estou prestes a pegar na máquina fotográfica e sair de casa. Vou para o aeroporto, vou comprar uma viagem, não levo mais nada comigo além da máquina fotográfica e da roupa maltrapilha que trago vestida. Vou porque nos sentimos seres superiores corrompidos igualmente pelo capitalismo e pela péssima comunicação social com que somos bombardeados. Vivemos enganados e achamos que lá, no oriente é tudo ao contrário do que na realidade é.

Cheguei do café assim. Estive durante uma hora arrepiada de um forma que não sei descrever muito bem. Acontece-me quando o tema me toca no coração e me faz perceber o sentido de toda a minha existência (às vezes também acontece com comida, vá). E o sentido da minha existência passa, sem sombra de dúvida, por histórias de pessoas, por histórias marcantes, vencedoras. Essa existência passa por ajudar a compreender o outro lado, o lado que não nos mostram, que nos ocultam e, na maioria das vezes, corrompem.

Os vencedores não são sempre os que vencem um jogo, não são sempre os melhores de todos. Os vencedores são os felizes, mesmo depois de tudo o que erradamente faz parte das suas vidas, tão erradamente que não somos capazes de imaginar, de visualizar ou de sentir. Seríamos certamente pessoas mais felizes se soubéssemos que no Médio Oriente alguém sem hijab é como que um ser superior, uma estrela de Rock ou o Presidente de um país qualquer. Gostam de tocar, de falar e chamam a vizinhança ver quem, de tanta importância, passa.

Sabem o que é que tudo isto significa? O mundo não é justo, mas não faz mal.     

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Formatamos (demasiado) os instintos

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Fotografia captada da varanda durante o primeiro nevão de 2017.

Gosto de crianças. Da velocidade com que confiam, esquecem e mudam de estado de espírito. Gosto de como comunicam com facilidade, como não pensam muito.

Gosto de ver a forma como o meu sobrinho se recusa a falar, mas faz-nos perceber tudo o que quer, não quer, gosta e não gosta. Gosto de quando uma bola na cara e uma hemorragia no nariz conseguem tanto ser um drama e um nada, quase ao mesmo tempo. Gosto particularmente do quanto uma criança não sabe que uma hemorragia no nariz não tem problema e a vive com intensidade, a mesma com que volta a brincar com a bola do trauma. Gosto acima de tudo da transparência.

Também gosto da inteligência que a adultez nos traz, da perspicácia. Gosto das ferramentas que, quando bem usadas, nos fazem triunfar. Mas não há nada pior do que o amuo orgulhoso, do que uma chantagem emocional prolongada, do que a falta de transparência no que toca a coscuvilhice. E nas crianças é tudo mais simples, mais ingénuo, melhor para a humanidade e menos complicado.

Deixemos os instintos acompanharem-nos pela vida. Formatemo-nos menos, sejamos acima de tudo e em tudo na vida mais transparentes. Se juntarmos o sal que é a inteligência, seremos todos um bocadinho mais felizes.

A mãe e os surfistas

10551432_10204457165537678_4472057360770853708_oFotografia tirada em 2014 com a Holga durante o campeonato de Surf em Espinho

Entrei no comboio, encostei-me perto de uma prancha de surf e de imediato o seu dono mirou-me. Foi aí que reparei nos surfistas. Duas mulheres e um homem. Jogavam cartas com desenhos de folhas de cannabis. Para a maioria dos viajantes do comboio, os surfistas passavam despercebidos, mas para alguns era uma situação de muita irreverência. Para mim, o melhor era, sem dúvida, a riqueza sociológica que ali se podia observar.

Reparei particularmente na forma como uma mãe de duas crianças, mais ou menos com a mesma idade dos surfistas [a mãe], olhava de soslaio e com ar reprovador. Ao mesmo tempo, a filha, pré-adolescente, espelhava encantamento, um brilho nos olhos ao observá-los. Todos os fascínios da filha eram reprovados pela mãe.

Os surfistas viajavam por diversão. Atravessavam Portugal, traziam a pele morena, o cabelo queimado pelo sol, roupas de praia e tatuagens. Depois de pararem o jogo de cartas, de joelhos no banco viam a belíssima paisagem que surge depois do túnel de Espinho. A mãe das crianças, por sua vez, viajava sentada com as filhas, não sentia o valor da beleza da viagem de comboio, usava roupas que não combinavam e não via uma escova de dentes há alguns dias. As crianças vestiam roupas passadas por várias, muitas mãos, mas comportavam-se exemplarmente.

O melhor de tudo: não havia certo ou errado entre aquelas realidades. Se por um lado a mãe vivia da forma que sabia, com as possibilidades que a vida lhe tinha apresentado e prezava por alimentar e vestir a família. Só assim. Por outro, os surfistas lançaram-se ao caminho, ignorando se a vida os possibilitava de algo mais ou não. Não sei se seriam mais realizados sem saberem muito bem qual a próxima paragem, o dia seguinte, o lugar seguinte, mas são certamente mais livres.

Amanhã, os surfistas estarão numa praia nova, prontos para aproveitar a imprevisibilidade do mar. A mãe, por sua vez, estará nas rotinas de sempre, como se assim tivesse sido sempre, sem imprevisibilidades de maior. 

That’s why we need feminism

DSC_0118.JPGFrase encontrada em várias ruas de Viana. Nem de propósito!

Estava a virar-me de barriga para baixo, na Praia do Cabedelo em Darque, quando ouço “Deus foi injusto contigo quando te deu umas pernas tão pequenas e uma língua tão grande”, saído da boca de um senhor nos seus cinquentas.

A mulher que ouvia não era de facto alta, mas mantenho a dúvida se o senhor só quereria comparar a capacidade dela para falar muito com qualquer outra coisa… ou se, por outro lado, teria inteligência suficiente para dizer que mesmo falando muito não iria muito longe. Desconfio que fosse a primeira, mas de qualquer das formas as minhas orelhas não saíram mais dali.

Ainda ouvi o senhor roncar como se estivesse na sua cama, a mulher reclamar porque as crianças a encheram de areia ao que ele, homem macho e viril, vociferou que trataria do assunto. Nada fez, claro está. Mas a pérola que me fez não deixar este momento passar em branco aconteceu de seguida, quando o tal homem desatou num monólogo ao ouvir uma música ao longe.

    – Isto é na Praia do Norte. Logo à noite enquanto tu lavas a louça e arrumas a casa e as coisas, eu vou até lá. Eu sei que nem aprecias esta música e assim tu ficas em casa a tratar de tudo e eu vou. É uma atitude nobre essa de ficares em casa.

Foi neste momento que a frase que fotografei no dia anterior fez todo o sentido do mundo. É esta a forma mais violenta de machismo que existe, dentro de portas, como se fosse normal e dado adquirido. Talvez seja da forma como fui educada, mas eu achei, durante muitos anos, que isto não era possível, não existia. Ainda há quem case e permaneça calado perante situações assim e pessoas capazes de dizerem este tipo de barbaridades. Pessoas que são felizes a saírem, a seu bel-prazer, enquanto a mulher fica a fazer as tarefas dos dois e a organizar a vida dos dois. Eu não sei, mas isto não (me) faz sentido.

Complicamos o nosso próprio mundo

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Às vezes o mundo parece-nos injusto porque nos complicamos a vida a nós próprios e a quem mais gostamos. Foi isso que descobri no outro dia, quando, sem telemóvel, pedi a um inglês para telefonar. Ficamos à conversa por uns minutos e foi bem interessante.

Antes de mais, deixem-me contextualizar-vos. Era sexta feira à noite, trabalhara e ia ter com uma amiga ao Jardim das Oliveiras, no cimo dos Clérigos. Atrasei-me e mesmo assim a minha amiga não estava lá. Procurei portugueses mas não encontrei. Acabei a pedir para ligar do telemóvel de uma brasileira que não tinha saldo, mas acabei por ligar ao Pedro, para que ligasse à minha amiga, do telemóvel do Alex, o inglês. O Pedro atendeu-me em inglês e qual não foi a surpresa dele ao ouvir-me. Até perguntou porque raio é que estava a ligar de Inglaterra.

Tudo esclarecido, enquanto a minha amiga chegava e não chegava, dei por mim a falar com o rapaz. Tinha 29 anos, londrino e tinha Portugal como país preferido, com o Porto no coração. A avó viajara para lá em jovem e dizia que era uma das cidades mais bonitas do mundo. Ele guardara isso e compartilha a paixão.

Aos 29 anos deu por ele entre uma família de médicos, desperdiçando duas oportunidades de se tornar médico. Tinha trabalhado como ajudante de dentista e estava em Portugal para pensar na vida. Chegara há dois dias e ficaria dois meses. Em 10 minutos de conversa disse-lhe que ele não estava ali para pensar na vida, ele sabia o que queria. Não, ele não queria terminar o curso, não queria voltar para o emprego que tinha. Ele sabia bem o que queria e era, nada mais nada menos, do que trabalhar com comida (não vou partilhar a ideia para não lhe estragar a oportunidade de negócio). Ele concordou a 100% com a minha opinião.

No fundo, aos 29 anos, ali tão perto dos 30, sente a pressão social para ter e não ter relações amorosas, filhos, trabalhos de gente adulta. No fundo, sempre tentaram decidir-lhe a vida e ele só quer fugir um bocadinho disso. Neste caso é a família que lhe complica a vida, que o sufoca em certa medida. Ao ponto de ele fugir por uns tempos. E que bem que fugiu, para a cidade mais bonita. Eu expliquei-lhe que só tinha de simplificar. Organizar as ideias, saber o que quer para a vida dele e seguir, independentemente de tudo o resto.

Somos tão influenciados pelas pessoas próximas quando isso é só o caminho mais difícil. E assim o mundo parece complicadíssimo, parece injusto, um lugar onde não sabemos se queremos estar. Quando poderia ser tão simples, quase tanto como um estalar de dedos.

Mundos sem camas para todos

A parte mais gira desta minha maravilhosa experiência que tem sido falar sobre colchões são as pessoas. Desde observar-nos a inquietude, a procura de uma perfeição que não existe porque se para uns o problema é o colchão ser alto de mais, para outros o problema é não ter em exposição todos os tamanhos. Há sempre um mas, sempre mais uma questão, mas uma chatice, mais uma razão para reclamar. Até mesmo ver a ingenuidade das crianças que hora se entusiasmam ao ver uma cama nova e lhe saltam em cima exclamando, invariavelmente, que é confortável, ora têm atitudes que dizem tudo sobre o que se passa por casa delas.

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Foi o caso de um menino, no outro dia, que não deveria ter 13 anos sequer. Passou, viu os preços dos colchões, arregalou os olhos, enquanto achava claramente um exagero e prosseguiu. Decidido, parou, olhou para trás e perguntou-me o que tinha de mais barato. Lá lhe ia explicando e simplificando os aspetos técnicos enquanto ele repetia “Que caro!”. Sempre educado, lá me explicou. A mãe precisava de um colchão porque eram muitos e não havia camas para todos. Mas o colchão era caro. E, mesmo assim, iria dizer à mãe o preço e ver se ela o podia comprar.

Claramente que não voltou lá. E assustadoramente 200 euros por um colchão pode ser muito dinheiro. Mesmo sendo o lugar onde passamos um terço do dia, mesmo sendo o sono de qualidade e o descanso uma das necessidades básicas para a saúde. O mundo não é justo, é certo.

Por outro lado, aquele menino, que trazia uma consciência de custos, de dificuldades em casa, que trazia uma bagagem mais alta do que ele, era extremamente desenrascado. A vida o pedia, no fundo. Toda essa aprendizagem que a escola não dá, ninguém lha tira. Poderá mesmo trepar bem mais alto do que muitos outros, ricos e de vida fácil, que nunca pensaram em ver o preço de um colchão para dizer à mãe que precisava. Às vezes não faz mal que o mundo seja injusto.

As redes sociais puseram o mundo ao contrário

Hoje, na vez do “Mundo não é Justo mas não faz Mal”, trago uma história que conta o quanto a superficialidade, a velocidade e a pouca consciência só deixam o mundo mais injusto. E triste.

Estava em Zurique e, no aeroporto, o embarque estava atrasado. Uma mulher portuguesa (penso eu) juntamente com dois filhos, algures entre os 3 e os 6 anos, estava a ser deportada. Entrou antes dos restantes passageiros e, aparentemente, não se mostrou desagradada em voltar para o país de origem. Depois disso, os restantes passageiros foram entrando, arrumado as bagagens e, quando o embarque estava a meio, surge, do fundo do avião, a tal mulher e os filhos. Ouve-se o mais pequeno dizer que tinha sido roubado, um grito da mulher a reclamar com a criança, repetindo “qué filho, qué filho?”. Quando passaram por mim fiquei confusa. Estavam todos em cuecas. Só e apenas em cuecas, nem sapatos nem nada.

Eu assumo a minhas ingenuidade… Pensei “são indígenas e andam assim… que cena!”. Santa inocência, Sara Maria, santa inocência! Eram mesmo pessoas com histórias complicadíssimas, que fugiram para a Suíça e de lá não queriam sair. Então, fizeram o que lhes tinha sido ordenado, mas conseguiram atrasar o processo. O hospedeiro chamou a polícia e explicou que os temporariamente-indígenas teriam de ficar na Suíça, depois daquela cena dentro do avião. Voltariam de qualquer forma, só não naquela hora.

Ao mesmo tempo que isto acontecia, passageiros em classes executiva e económica filmavam a situação. Parece normal? Infelizmente sim. Estamos constantemente de telemóvel em riste, a filmar para publicar, como se fosse normal. Como se fosse instintivo partilhar com o mundo, ao momento a desgraça dos outros. Tal e qual a televisão nos tem ensinado, não só em programas de apanhados, mas nos próprios noticiários.

Gostamos tanto de ver, de saber, de contar e, com um vídeo, é ainda mais verdade, mas realista. Assim, mais ou menos como se não estivesse na Internet não fosse verdade, como se uma história contada já não valesse nada. E isto é tão triste. Lemos menos porque as imagens são mais rápidas e são o que nos captam. Lemos menos e as histórias perdem valor. Lemos menos, filmamos mais e, com a maior das leviandades, gravamos a desgraça alheia.

Se ao compreender a dimensão do que faz uma mulher despir-se a ela e aos filhos e atravessar um avião para chamar à atenção fiquei em choque, algo emotiva e bastante confusa, com vontade de me levantar e sair do avião com ela só para conhecer aquelas história, saber que filmaram, que nem sequer pensaram no lado daquelas pessoas (ou palhaços de circo), faz-me descrer na humanidade.

Não sei com se faz para mudar toda esta materialização de tudo, quando é que pensar e sentir voltam a ser o primeiro instinto. Ou serei eu que tenho uma visão muito romântica das coisas?