Complicamos o nosso próprio mundo

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Às vezes o mundo parece-nos injusto porque nos complicamos a vida a nós próprios e a quem mais gostamos. Foi isso que descobri no outro dia, quando, sem telemóvel, pedi a um inglês para telefonar. Ficamos à conversa por uns minutos e foi bem interessante.

Antes de mais, deixem-me contextualizar-vos. Era sexta feira à noite, trabalhara e ia ter com uma amiga ao Jardim das Oliveiras, no cimo dos Clérigos. Atrasei-me e mesmo assim a minha amiga não estava lá. Procurei portugueses mas não encontrei. Acabei a pedir para ligar do telemóvel de uma brasileira que não tinha saldo, mas acabei por ligar ao Pedro, para que ligasse à minha amiga, do telemóvel do Alex, o inglês. O Pedro atendeu-me em inglês e qual não foi a surpresa dele ao ouvir-me. Até perguntou porque raio é que estava a ligar de Inglaterra.

Tudo esclarecido, enquanto a minha amiga chegava e não chegava, dei por mim a falar com o rapaz. Tinha 29 anos, londrino e tinha Portugal como país preferido, com o Porto no coração. A avó viajara para lá em jovem e dizia que era uma das cidades mais bonitas do mundo. Ele guardara isso e compartilha a paixão.

Aos 29 anos deu por ele entre uma família de médicos, desperdiçando duas oportunidades de se tornar médico. Tinha trabalhado como ajudante de dentista e estava em Portugal para pensar na vida. Chegara há dois dias e ficaria dois meses. Em 10 minutos de conversa disse-lhe que ele não estava ali para pensar na vida, ele sabia o que queria. Não, ele não queria terminar o curso, não queria voltar para o emprego que tinha. Ele sabia bem o que queria e era, nada mais nada menos, do que trabalhar com comida (não vou partilhar a ideia para não lhe estragar a oportunidade de negócio). Ele concordou a 100% com a minha opinião.

No fundo, aos 29 anos, ali tão perto dos 30, sente a pressão social para ter e não ter relações amorosas, filhos, trabalhos de gente adulta. No fundo, sempre tentaram decidir-lhe a vida e ele só quer fugir um bocadinho disso. Neste caso é a família que lhe complica a vida, que o sufoca em certa medida. Ao ponto de ele fugir por uns tempos. E que bem que fugiu, para a cidade mais bonita. Eu expliquei-lhe que só tinha de simplificar. Organizar as ideias, saber o que quer para a vida dele e seguir, independentemente de tudo o resto.

Somos tão influenciados pelas pessoas próximas quando isso é só o caminho mais difícil. E assim o mundo parece complicadíssimo, parece injusto, um lugar onde não sabemos se queremos estar. Quando poderia ser tão simples, quase tanto como um estalar de dedos.

Mundos sem camas para todos

A parte mais gira desta minha maravilhosa experiência que tem sido falar sobre colchões são as pessoas. Desde observar-nos a inquietude, a procura de uma perfeição que não existe porque se para uns o problema é o colchão ser alto de mais, para outros o problema é não ter em exposição todos os tamanhos. Há sempre um mas, sempre mais uma questão, mas uma chatice, mais uma razão para reclamar. Até mesmo ver a ingenuidade das crianças que hora se entusiasmam ao ver uma cama nova e lhe saltam em cima exclamando, invariavelmente, que é confortável, ora têm atitudes que dizem tudo sobre o que se passa por casa delas.

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Foi o caso de um menino, no outro dia, que não deveria ter 13 anos sequer. Passou, viu os preços dos colchões, arregalou os olhos, enquanto achava claramente um exagero e prosseguiu. Decidido, parou, olhou para trás e perguntou-me o que tinha de mais barato. Lá lhe ia explicando e simplificando os aspetos técnicos enquanto ele repetia “Que caro!”. Sempre educado, lá me explicou. A mãe precisava de um colchão porque eram muitos e não havia camas para todos. Mas o colchão era caro. E, mesmo assim, iria dizer à mãe o preço e ver se ela o podia comprar.

Claramente que não voltou lá. E assustadoramente 200 euros por um colchão pode ser muito dinheiro. Mesmo sendo o lugar onde passamos um terço do dia, mesmo sendo o sono de qualidade e o descanso uma das necessidades básicas para a saúde. O mundo não é justo, é certo.

Por outro lado, aquele menino, que trazia uma consciência de custos, de dificuldades em casa, que trazia uma bagagem mais alta do que ele, era extremamente desenrascado. A vida o pedia, no fundo. Toda essa aprendizagem que a escola não dá, ninguém lha tira. Poderá mesmo trepar bem mais alto do que muitos outros, ricos e de vida fácil, que nunca pensaram em ver o preço de um colchão para dizer à mãe que precisava. Às vezes não faz mal que o mundo seja injusto.

As redes sociais puseram o mundo ao contrário

Hoje, na vez do “Mundo não é Justo mas não faz Mal”, trago uma história que conta o quanto a superficialidade, a velocidade e a pouca consciência só deixam o mundo mais injusto. E triste.

Estava em Zurique e, no aeroporto, o embarque estava atrasado. Uma mulher portuguesa (penso eu) juntamente com dois filhos, algures entre os 3 e os 6 anos, estava a ser deportada. Entrou antes dos restantes passageiros e, aparentemente, não se mostrou desagradada em voltar para o país de origem. Depois disso, os restantes passageiros foram entrando, arrumado as bagagens e, quando o embarque estava a meio, surge, do fundo do avião, a tal mulher e os filhos. Ouve-se o mais pequeno dizer que tinha sido roubado, um grito da mulher a reclamar com a criança, repetindo “qué filho, qué filho?”. Quando passaram por mim fiquei confusa. Estavam todos em cuecas. Só e apenas em cuecas, nem sapatos nem nada.

Eu assumo a minhas ingenuidade… Pensei “são indígenas e andam assim… que cena!”. Santa inocência, Sara Maria, santa inocência! Eram mesmo pessoas com histórias complicadíssimas, que fugiram para a Suíça e de lá não queriam sair. Então, fizeram o que lhes tinha sido ordenado, mas conseguiram atrasar o processo. O hospedeiro chamou a polícia e explicou que os temporariamente-indígenas teriam de ficar na Suíça, depois daquela cena dentro do avião. Voltariam de qualquer forma, só não naquela hora.

Ao mesmo tempo que isto acontecia, passageiros em classes executiva e económica filmavam a situação. Parece normal? Infelizmente sim. Estamos constantemente de telemóvel em riste, a filmar para publicar, como se fosse normal. Como se fosse instintivo partilhar com o mundo, ao momento a desgraça dos outros. Tal e qual a televisão nos tem ensinado, não só em programas de apanhados, mas nos próprios noticiários.

Gostamos tanto de ver, de saber, de contar e, com um vídeo, é ainda mais verdade, mas realista. Assim, mais ou menos como se não estivesse na Internet não fosse verdade, como se uma história contada já não valesse nada. E isto é tão triste. Lemos menos porque as imagens são mais rápidas e são o que nos captam. Lemos menos e as histórias perdem valor. Lemos menos, filmamos mais e, com a maior das leviandades, gravamos a desgraça alheia.

Se ao compreender a dimensão do que faz uma mulher despir-se a ela e aos filhos e atravessar um avião para chamar à atenção fiquei em choque, algo emotiva e bastante confusa, com vontade de me levantar e sair do avião com ela só para conhecer aquelas história, saber que filmaram, que nem sequer pensaram no lado daquelas pessoas (ou palhaços de circo), faz-me descrer na humanidade.

Não sei com se faz para mudar toda esta materialização de tudo, quando é que pensar e sentir voltam a ser o primeiro instinto. Ou serei eu que tenho uma visão muito romântica das coisas?

Uma longa viagem

Hoje é dia de falar sobre viagens e eu queria muito contar como foi em Santorini. Mas os últimos dias foram tão atribulados que não conseguiu. Decidi, portanto, partilhar um texto que estava pronto, sobre uma viagem diferente. Tem sido uma viagem bem longa e bonita. Acho que até melhor do que a de Santorini!


Foi há qualquer coisa como cinco anos. Desculpa-me por não fazer a mínima ideia do dia e de não o querer saber. Saber que foi há qualquer coisa como cinco anos já não me parece nada mal, na verdade. Também me lembro que te abananei um bocadinho a vida, o modus operandi certinho. Foi há pouco mais de cinco anos que aprendeste que faltar às aulas pode até ser útil e resultar em boas notas. Depois descobriste que não ter a melhor nota possível na tese também valeu a pena. Começaste a aprender que comigo a tua vida nunca mais seria a mesma e que adaptareste à minha loucura poderia até ser divertido. Obrigada. Obrigada por te teres aventurado por caminhos tão sinuosos!

Foi há qualquer coisa como quatro anos que ficamos meses sem nos vermos, que fizemos a primeira viagem juntos, que te mostrei a belíssima da cidade de Praga, que ainda sei de cor, e que conhecemos uma Viena cinzenta com edifícios demasiado grandes para amar. Foi nessa altura que percebemos que mesmo passando uma semana inteira a aturarmo-nos, não nos cansávamos um do outro. Obrigada. É demasiado bom deixares-me ser um passarinho e aguentares tão bravamente passares dias infinitos sem mim, da mesma forma que aguentas horas infinitas comigo por perto.

Foi há qualquer coisa como três anos que os cabelos brancos abrandaram e que o teu sorriso expressou a maior felicidade que vi até então. Era o fim da tua tese. E o início da minha. Foi aí que o teu sorriso enorme foi preciso para que o meu não esmorecesse e que bem que se saiu! Foi aí que conseguiste juntar tantas das pessoas mais importantes para mim num só lugar, sem eu saber, e me fizeste começar a gostar de envelhecer. Conseguiste! Aguentaste com toda a firmeza toda a minha loucura e indecisão e motivaste a perseverança que andava por cá envergonhada. Obrigada. Obrigada por nunca (mesmo nunca!) desistires de me ver sorrir!

Foi há qualquer coisa como dois anos que te embrenhaste nesta minha vontade (e na tua ambição) de voar para longe, nem que fosse por um bocadinho. Foi nessa altura que definimos os planos com clareza e que definimos o quanto 2016 mudaria tudo. Foi aí a primeira vez em que a minha loucura e inconsequência atingiu recordes históricos e aceitei vir sem mais nada. Como se fosse só assim, ir. Como se nada pudesse correr mal, como se o mundo fosse nosso. Obrigada. Obrigada por aceitares esta vontade de voar e me permitires ver que o mundo pode mesmo ser nosso!

Foi há qualquer coisa como um ano que percebemos que tínhamos a casa mais querida da história, que percebi o quando Viena afinal é bonita, que recebemos amigos nesta vista invejável de campo e montanha, junto a uma cidade. Foi nessa altura que percebeste o quanto gostavas de cozinhar e que eu percebi o quanto gosto da tua comida. Foi nessa altura que viajamos sem parar e até nos cansamos. Foi nessa altura que percebemos o quanto cinco anos passam a voar mas são uma vida inteira e que ninguém fala disto de nunca nos cansarmos um do outro, de não haver anos ou alturas menos boas. Foi aí que percebemos o quanto somos prendados em ver no diferente o lado bom, sempre, todos os dias. Obrigada. Obrigada por (quase porque nunca acreditei no Pai Natal) me fazeres acreditar em contos de fadas.

Foi há qualquer coisa como uns dias que decidimos comprar uma casa e começar a construir o caminho numa nova direção. E foi nesses dias que consegui ser ainda mais louca, mais inconsequente, recusar um trabalho e ir, sem caminhos traçados. E vamos. Daqui a um ano vamos saber que o mundo vai ser ainda mais nosso, tão nosso quanto maior a coragem e força que tivermos. Obrigada por me motivares a ser assim, corajosa, ter asas e voar (literalmente).

Ser fora da Caixa

Por entre tudo o que me sensibiliza, mexe nas entranhas e me faz dar mil e uma voltas à cabeça para me pôr a mexer e fazer reverter injustiças, são as injustiças com crianças que mais me envolvem. Quando vejo outros trabalharem por isso, das formas mais simples, desinteressadas e dadoras, fico de coração cheio, tanto, tanto que dura semanas inteirinhas. É sobre isso que quero falar hoje, já com algum atraso.

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Imagem via Pinterest

Há algumas semanas, estava a ajudar na organização de uma pequena festa, quando duas meninas se apresentam disponíveis para o que precisasse. A idade traz coisas como ver crianças em adolescentes de 14 ou 15 anos. Ainda assim, apresentei-me, disse-lhes para me tratarem pelo nome e começamos a trabalhar em conjunto. Tudo muito bem, muito certinho e calminho até que à hora de almoçar percebo que, sem que eu soubesse, sem que tivesse pedido, havia um lugar guardado na mesa delas para mim.

Guardaram-me lugar, comida e estavam dispostas a partilhar tudo o que eu pedisse. Dei por mim a almoçar com 7 adolescentes entre os 13 e os 17 anos. E como as histórias de vida são coisa que me encanta, quis muito conhecer as deles.

Não imaginam a minha surpresa quando percebi que todos eles se enquadravam no estereótipo “aluno problemático”. Todos eles tinham negativas várias, histórias de família complicadas, a maioria com reprovações na escola e olha para eles ali: queridos, dispostos a trabalhar, respeitadores com quem os respeitava e todas as características de relações interpessoais que não se associa, à partida, a crianças escolarmente problemáticas.

Quis saber mais, perceber como e o porquê de estarem ali. Tinham um teatro preparado para apresentar. Eram orientados pro alguém que simplesmente gostava deles como eram. E, na mesma moeda, pagavam com amor. Só isso, amor por amor. Sem estratos sociais, ou outras caixinhas onde insistimos em enfiar toda a gente. E isto é o melhor sinal de esperança para esta sociedade com padrões muito pouco flexíveis.

O Guilherme e a simplicidade

Vi esta reportagem e não me sai da cabeça desde aí. Esta Ana e este Guilherme têm algo de muito especial. Não falo da mutação do Guilherme, essa não tem nada de especial, é só uma valente merda. O especial está-lhes na serenidade com que falam, na segurança que encontram nos silêncios, na pureza das gargalhadas, na desmistificação dos medos, na simplicidade que decidiram impôr nos dias. O especial está-lhes na pele, nos olhos, nos sorrisos, na leveza daquilo que podia ser uma dor e lhes atormentasse a vida. 

O Guilherme tem Espinha Bífida e foi-lhe diagnosticada ainda durante a gestação. A mãe, que já aí sabia que o seria sempre sozinha (não gosto da expressão “mãe solteira”), não duvidou por um segundo que o Guilherme teria de nascer. Tratou de fazer o luto das coisas que o Guilherme não poderia fazer e apaixonou-se por ele de seguida. É assim que o Guilherme tem crescido, com uma mãe apaixonada por ele, pela sua leveza pela sua sorte, pela sua forca e perseverança, como se tivesse nascido com a missão de mostrar o quão é fácil, o quão somos nós, ditos normais e com mutações menos evidentes, que complicamos o mundo. E a vida.

Numa próxima vida, na bifurcação que me afastou do jornalismo, escolherei outro caminho, só para poder ouvir e contar estas histórias na primeira pessoa.

Conquistas de ano velho #3

É um lugar comum: as melhores coisas da vida são as de todos os dias, as mesmas pelas quais nutrimos menos agradecimento. Esquecemo-nos de olhar para dentro de portas e cortinas, para as rotinas, para as pessoas, para os objetos. Não serão essas mesmas coisas que fazem de nós aquilo que somos, aquilo que construímos e vivemos todos os dias? Nós somos um coração cheio pelas crianças que entram em casa e correm por ela fora, somos um sofá com uma manta que nos aconchega e nos protege do lado lunar do mundo, somos o exercício que fazemos, os nossos alimentos favoritos. Somos as séries e os filmes que vemos, os livros que lemos, os lugares que visitamos. Somos as pessoas que partilham o dia a dia connosco e as que estão por skype, por whatsapp, sms, facebook ou outra rede social qualquer. Somos o trabalho que fazemos, as boas ações a que nos dedicamos. Somos o sol que temos e as montanhas ou o mar que vemos. Somos um bocadinho dos nossos animais de estimação e da casa que cuidamos. Somos as discussões feias e construtivas, as memórias dos nossos inimigos. Somos os amigos que encaixamos nos nossos tempos livres. Estes são lugares comuns e são eles que nos aproximam ou distanciam, dependendo da gratidão que temos, sentimos e demonstramos.

É por tudo aquilo que sou de novo este ano que agradeço. O salto para a piscina foi tão perfeito como teria de ser. Aparentemente, o ano que passou manteve intacto o que fazia o meu eu de 2015 e isso é ainda um motivo de agradecimento maior. Manter. Uma das maiores conquistas da vida é ser capaz de manter tudo o que nos faz bem. Melhor ou pior (havemos de ser sempre relativos) mantive as pessoas, os amigos de quem gosto tanto, e fui vendo-as e sabendo delas com toda a dedicação que fui capaz.

Mais do que manter, 2016 foi marcado por um amor maior todos os dias. Um amor simples, sem confusões, sem complicações. Foi marcado por dias menos corridos, por uma casa mais pequenina e por montanhas maiores. Marcado por um dia a dia fácil e todos os dias melhores. O Pedro é uma conquista de ano velho que se manterá no próximo. Sou muito grata por isso. Sou muito grata pela capacidade dele de cozinhar todos os dias sem se cansar. E isto não tem nada de superficial porque é disto que os nossos dias são feitos, é de toda a dedicação que é necessária para um ano inteiro de comida saborosa. Um ano inteiro de dedicação que precede mais e mais anos inteiros de dedicação. Haverá alguma coisa mais bonita? É a isto que me refiro quando digo que nos esquecemos dos lugares comuns. Esquecemo-nos quem torna possível a vida que levamos, a saúde que temos e a felicidade que nos enche o peito. Vamos ser mais gratos em 2017 e manter em 2018, pode ser?