O que Sabemos Sobre o Nosso |Dinheiro|?

Como eu dizia há uns tempos atrás, há coisas que não nos ensinam na escola e que põe em causa toda a nossa sociedade e a realidade que conhecemos. Hoje volto à guerra contra a desinformação. Contra a dificuldade que enfrento em compreender todos estes conceitos de gestão e economico-financeiros. Conto-vos também quais são as minhas soluções de gestão financeira.

IVA, IRS, spread, Euribor, certificados de aforro, certificados de tesouro, PPR, depósitos a prazo, contas poupança, ações, créditos para 350 coisas, trabalhadores independentes, empresas unipessoais, recibos verdes, descontos, segurança social, finanças. Todos estes são termos básicos que vamos ouvindo falar, mas ainda assim a percentagem da população que os domina é muito reduzida. Esta falta de literacia financeira foi uma das culpadas da situação económica atual do nosso país e se não treinamos as gerações futuras, não sairemos deste buraco em que trabalhamos à borla, em que guardar dinheiro é pouco compensado e pedir crédito é barato.

Tinha eu uns 10 anos quando fui com os meus pais ao banco atualizar a minha caderneta da conta poupança. Fiquei surpreendida para a vida quando vi que os juros da minha mísera conta rendiam 40 euros de meio em meio ano [nos dias de hoje precisava de ter uns 50mil euros, com sorte, para ganhar tanto com juros]. Tão surpreendida, tão surpreendia fiquei que exclamei “ainda dizem que Continuar a ler

(Ainda) Conquistas de ano velho #4

No post anterior falava da sábia decisão de não comprar uma televisão. Falava também de que mesmo assim não houve falta de programas televisivos. E se no meu top 8 encontramos maioritariamente programas em inglês – coisa que só me faz bem, já que trabalho quase exclusivamente em inglês -, no restante top incluo mais séries portuguesas.

No último ano, a RTP investiu em séries e pretende comercializá-las futuramente. Podem dizer-me que a qualidade fica muito aquém de tudo o que podemos ver nas AXN, Fox ou Netflix desta vida, mas não deixa de ser entretenimento e é em português, com melhor qualidade do que a maioria do que vemos atualmente nas televisões. E mais, da mesma forma que a produção das novelas melhorou imenso nos últimos 20 anos, são necessários estes primeiros passos para, um dia, os orçamentos e as técnicas de produção das séries em português sejam boas. Um dia.

E mais, eu gosto muito de ouvir português, da própria da língua portuguesa, da história de Portugal e desta personalidade feminina, como dizia alguém, emotiva, que sentimos na nossa cultura. E por isso sigo online todas estas novidades. Essas e outras em inglês. Divirtam-se!

Imagens: IMDB e RTP

#9 Suits e White Collar

São duas séries nada profundas, não muito educativas, mas mostram mundos interessantes: o negócio do direito nos Estados Unidos e o negócio da valiosíssima arte e o seu tráfico. São duas séries que nos fazem ver o lado bonito do mal, os atores são escolhidos a dedo e os diálogos prontos para tocar emoções. De qualquer das formas, não são séries indispensáveis.

#10 Grace & Frankie

Quando comecei a ver esta série estava a precisar de qualquer coisa soft que me fizesse companhia, mas não me obrigasse a olhar para o computador muitas vezes. A história é soft, divertida, tal como o inglês. Duas mulheres divorciadas que não trabalham… Uma muito hippie e dada a exoterismos e outra muito tia. Um bom passatempo, mas não uma série extraordinária… ali ao nível das comédias românticas.

#11 Dentro

É uma série portuguesa, a melhor que a RTP lançou no último ano. A história é diferente e, para variar, não termina tudo bem. Fala sobre uma prisão de mulheres… e se muitas mulheres juntas nunca dá bom resultado, agora imaginem mulheres com passados tão peculiares.  Levanta algumas questões interessantes e a maioria dos personagens é bem construída.

#12 Mulheres Assim

Está quase ao nível da série anterior. Vai falando sobre diferentes mulheres que se relacionam entre si em primeiro ou segundo grau. Está provado que nos podemos ligar a qualquer pessoa do mundo por sete níveis de ligação (acho que são sete), e nesta série restringimo-nos a Lisboa. Em 20 episódios conhecemos essas mulheres, cheias de peculiares histórias. O argumento é piorzinho que a série anterior, mas tem a sua graça e suspense.

#13 Miúdo Graúdo

É amorosa. Uma criança que lê “A Máquina do Tempo”, constrói-a e faz viajar o seu eu do futuro até ao seu presente. Nem sempre é bom concretizar sonhos tao inimagináveis, nem sempre queremos conhecer o nosso eu do futuro. Foi o que aconteceu com o Miguel. Esta série ainda está a decorrer e estou curiosa por saber como acabará. É pena entrar um bocadinho no campo da novela, caso contrário seria a melhor do ano na RTP.

#14 Black Mirror

A ideia é boa. A ideia é muuuiiito boa. A ideia é fazer com que percebamos o quanto o uso extremo de tecnologia pode tornar as nossas vidas mais difíceis e absurdas. Mas tem um problema muito grande: as situações são demasiado absurdas e um bocadinho mal exploradas. Imaginem que poderiam ter um robot com o aspeto de um ente querido que morreu. Esse robot baseiar-se-ia na informação que encontra nas redes sociais e constrói um carácter. Pois… mas a verdade é que não somos tão unidimensionais e o que as nossas redes sociais mostram de nós é muito pouco do que nos faz sermos nós próprios. Este é um exemplo, um dos melhores episódios. É uma série da moda, mas eu não acho que faça assim tanto sentido. A série mostra-nos seres tecnológicos e como se tivéssemos perdido a alma, a profundidade e o riso. Mehhhh… não gosto.

#15 Making a Murderer

O documentário que estava na boca do mundo no incio de 2016. Era sobre um homem preso injustamente por negligencia policial. Foi realizado a partir de gravações reais. O documentário apresenta o caso em 10 episódios. Primeiro: eu não me entretenho com o lado negro do mundo real. Também por isso, raramente vejo ou leio um jornal de fio a pavio. Gosto de ficção. Segundo: 10 episódios? DEEEEZ? Santa paciência. Desisti a meio do primeiro episódio.

#16 Bloodline

Que bem que isto começou! Uma família com cinco filhos. Um que era a ovelha negra e construiu uma personalidade inconsequente e revoltada. Havia suspense, exploração das varias dimensões dos personagens, técnicas de filmagem que nos faziam sentir no Hawai. Mas depois a história virou novela. Anda, mas não anda. Anda para trás, para a frente, para trás, para a frente. Detesto quando as séries se tornam demasiado comerciais. Deteeesto.

#17 Terapia

A primeira série que a RTP lançou em 2016. A ideia era interessante mas os diálogos eram básicos e não desenvolviam, não iam profundamente. Isso junto com a ideia de tudo acontecer numa só sala, não ajudou a dar qualquer energia à coisa. De qualquer forma era mais uma daquelas séries que entretinha, ao contrário de Bloodline ou Making a Murderer que só me irritavam.

#18 Sense8 e Orange is the New Black

NÃO. NÃO ME DIGAM QUE ISTO É BOM. Ambas as séries perderam-me no primeiro episódio. A primeira ainda foi continuada, a segunda ficou por ali… com tanta oferta decidi que chegava. Vendem-se pelo sexo explícito e isso faz com que sejam muito faladas, muito polémicas e… muito mais. Comercial, apenas comercial e capaz de conquistar todo o extremista da comunidade LGBT.

E era isto. Divirtam-se e (não) saquem muito!

Conquistas de ano velho #4

A decisão de não comprar uma televisão foi sem dúvida uma conquista do ano anterior. Em primeiro lugar porque aqui paga-se antena independentemente do tipo e do número de canais. E uma poupança é um bom motivo para qualquer coisa. Em segundo porque o próprio do televisor é caro e geralmente grande, aumentando o transtorno na hora em que tivermos de mudar de casa. Em terceiro porque não é pela ausência de um televisor que não assistimos a programas televisivos. A internet é a nova televisão e desde notícias, a podcasts, canais do youtube, séries e, às vezes, filmes, tudo se encontra legalmente online. Decidi assim realçar quais os programas de entretenimento que animaram o meu 2016. Há os bons e os maus, em português e em inglês. As tentativas em alemão não contam porque não passaram de tentativas. Talvez no próximo ano!

#1 NARCOS1narcos

Uma série sobre narcotraficantes que começa por descrever como cresceu este mundo na Colômbia, como se espalhou para os Estados Unidos, como morreu Pablo Escobar e seguirá numa terceira temporada, com o português Pêpê Rapazote e com os quartéis de narcotraficantes que se mantiveram mesmo após a morte do fundador do Quartel de Medellín. Se não viram, vejam! É uma série ótima como entretenimento, assim como aprendizagem. Há críticas da família Escobar, afirmando que os factos não são todos fidedignos. É natural, trata-se de uma série de televisão. Ainda assim ótima realização, ótimos diálogos, divertida, e uma ótima perspetiva de como foi possível o negócio da cocaína ter crescido tão rapidamente. E de como um homem nunca é só mau ou bom. Há sempre dois lados da mesma moeda.

#2 HOUSE OF CARDS
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Esta série mexe-me com os nervos e torna-se compulsiva. É uma série cujos episódios de cada temporada são publicados todos no mesmo dia. Se pudesse vi-a toda no mesmo dia, também. Para minha sanidade mental não posso e acabou por render umas duas ou três semanas. Adoro o Kevin Spacey, que ator! Adoro a forma como jogam com os nossos sentimentos, como nos põe a torcer pelos maus, como desafiam as prioridades da vida, como a ambição pode atingir um extremo e mover montanhas. A Netflix lançou esta última temporada em todo o lado ao mesmo tempo, exceto na Alemanha e na Áustria. Vimo-la com um proxy que foi bloqueado antes de vermos o último episódio. Coisas do demo! Adorei e quero MUITO ver a próxima temporada.

#3 BEM-VINDOS A BEIRAIS
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É a primeira série portuguesa que aparece neste top. Podem dizer que não se compara com as séries anteriores em termos de realização e argumento. Mas isso não interessa para nada porque foi a minha melhor companhia durante a tese e durante os primeiros tempos cá. Vi TODOS os episódio (são mais de 600), ou pelo menos ouvi. É tipo os amigos… às vezes sabemos que não são as melhores pessoas do mundo e nem por isso deixamos de os adorar. E Beirais tem um espírito muito português, é emocional, é fado, é êxodo e valorização rural. É uma historia miudinha e simples, e não é uma novela que anda frente e trás sem fim aparente. Aliás, só não fica em primeiro lugar porque os efeitos que as duas primeiras impuseram em mim são muito intensos.

#4 MALUCO BELEZA4-malucobeleza

Não é um programa de televisão. Não é um programa de rádio. É um programa publicado apenas na internet. A autoria é de Rui Unas, primeiro jornalista, depois um pouco comediante e atualmente até ator. Este homem tem uma carteira de contactos tão abrangente que se pode dar ao luxo de fazer o seu próprio programa, que já é rentável e apenas na internet. Trata-se de entrevistas publicadas em segmentos ou lançadas em direto, com muito pouca edição. Na generalidade das vezes é possível conhecer um lado diferente de cada figura pública ou personagem pela qual é conhecida. Tenho conhecido umas quantas pessoas interessantes. Apenas peca porque necessita de alguma inovação. Isso e pela Maria que faz a introdução dos diretos e tem muito pouco talento para tal.

Episódio aqui: http://www.malucobeleza.tv/

#5 THE AMERICANS
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É uma história de espiões. Espiões russos infiltrados como uma comum família americana. É a melhor história de espiões porque estes espiões são pessoas, não super heróis. Há luta, há violência. Mas há também o lado humano, o lado que dói, custa e se adapta aos lugares novos. Os disfarces são geniais,  as historias mexem também. Uma família americana, que, na realidade, é russa.

#6 STRANGER THINGS
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Não é nada de novo. A história não é nova, as piadas e as personagens também não. Stranger Things é uma mistura de sucessos que funciona. Por mim funciona porque ADORO o miúdo com espaço nos dentes. Adoro a ideia de amizade sem tecnologia, sem facebooks que mascaram as nossas relações e, grande parte das vezes, devia ser proibido. Se gostam de clássicos dos anos 80, sejam bem-vindos a esta série.

#7 FARGO
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Fargo. Oh Fargo! Mixed feelings acerca de Fargo. Se por um lado a série é brutal, extremamente aleatória e inspirada no filma Fargo, por sua vez inspirado numa louca história que só se poderia ter passado nos Estados Unidos, Fargo serve-se de humor negro. E o humor negro não me faz rir e não me diverte. De maneira que se adorei tudo na série, mas o uso deste tipo de piadas, faz-me não ter vontade de a repetir. Por outro lado, se gostam de séries que vos dão a volta aos neurónios e se acham fraca a indivíduos que sofreram bullying em criança, que ficam amigos de outros indivíduos intelectualmente perturbado e com distúrbios morais, numa sala de espera dum hospital, os quais matam inimigos e supõe que salvar após matar a esposa é matar o polícia… esta série é para vocês [posso ter exagerado um bocadinho, mas é mais ou menos isto].

#8 THE TUDORS
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 Começou bem. Terminou demasiado comercial. Ainda assim, uma série de época que vale bem aproveitar para conhecer esta dinastia inglesa e a história da famosa Ana Bolena e da origem da expressão “Bloody Mary”.

Imagens: IMDB
[Mais séries no próximo post: Suits, White Colar, Frank&Grace, Dentro, Mulheres Assim, Sense 8, Orange in the New Black, Making a Murderer, Bloodline e Terapia]

Resoluções de ano novo #1

Ter ideias ao saltos é transformar a Queijadinha em modo natalício… Entretanto já lhe fiz um pompom branco e parece menos o Merlin!

Nunca sei muito bem se quando vou a Portugal vou de férias, ou se esses dias são só uma extensão do lugar onde moro. A verdade é que vou lá ao dentista, saber dos amigos, porque os amigos ainda são os de lá, é lá que vou à missa, é lá que estou nas festas e que corto o cabelo. É complicado que essa extensão da minha vida esteja à distância de um autocarro e de um avião, que tenhamos de variar pressões e temperaturas, deixando quinze graus e aterrando em menos quinze. Mas é também um luxo ter Portugal como uma extensão do lugar onde moro ao invés de ser o meu país Natal pelo qual morro de saudades. É mais do que uma extensão, é uma forma de me fazer sair da rotina chata do trabalho-casa-trabalho-ginasio-casa-trabalho- preguiça. É bom porque esta rotina mata a criatividade e a vontade pela inovação. Se há coisa que me soube bem nesta última viagem do ano foi sentir-me novamente criativa, procurar pôr mais ideias em prática

Abandono

É o que se chama ao que se passa neste blog. Mas pessoas, quando se vive de coração na boca e se procura manter tudo intacto ainda que se tenha um apartamento alugado a 2000km da terra natal, ora é necessário passar tempo de qualidade com as melhores pessoas do mundo, ora há uma casa para manter em ordem mesmo sem qualquer ajudinha. Não consegui agendar todos os posts antes das festas e os que escrevi entretanto têm erros terríveis, mas é o que se tem arranjado. Daqui a nada já estou em casa e, na pior das hipóteses, conto tuuuudo a partir de segunda!

Conquistas de ano velho #3

É um lugar comum: as melhores coisas da vida são as de todos os dias, as mesmas pelas quais nutrimos menos agradecimento. Esquecemo-nos de olhar para dentro de portas e cortinas, para as rotinas, para as pessoas, para os objetos. Não serão essas mesmas coisas que fazem de nós aquilo que somos, aquilo que construímos e vivemos todos os dias? Nós somos um coração cheio pelas crianças que entram em casa e correm por ela fora, somos um sofá com uma manta que nos aconchega e nos protege do lado lunar do mundo, somos o exercício que fazemos, os nossos alimentos favoritos. Somos as séries e os filmes que vemos, os livros que lemos, os lugares que visitamos. Somos as pessoas que partilham o dia a dia connosco e as que estão por skype, por whatsapp, sms, facebook ou outra rede social qualquer. Somos o trabalho que fazemos, as boas ações a que nos dedicamos. Somos o sol que temos e as montanhas ou o mar que vemos. Somos um bocadinho dos nossos animais de estimação e da casa que cuidamos. Somos as discussões feias e construtivas, as memórias dos nossos inimigos. Somos os amigos que encaixamos nos nossos tempos livres. Estes são lugares comuns e são eles que nos aproximam ou distanciam, dependendo da gratidão que temos, sentimos e demonstramos.

É por tudo aquilo que sou de novo este ano que agradeço. O salto para a piscina foi tão perfeito como teria de ser. Aparentemente, o ano que passou manteve intacto o que fazia o meu eu de 2015 e isso é ainda um motivo de agradecimento maior. Manter. Uma das maiores conquistas da vida é ser capaz de manter tudo o que nos faz bem. Melhor ou pior (havemos de ser sempre relativos) mantive as pessoas, os amigos de quem gosto tanto, e fui vendo-as e sabendo delas com toda a dedicação que fui capaz.

Mais do que manter, 2016 foi marcado por um amor maior todos os dias. Um amor simples, sem confusões, sem complicações. Foi marcado por dias menos corridos, por uma casa mais pequenina e por montanhas maiores. Marcado por um dia a dia fácil e todos os dias melhores. O Pedro é uma conquista de ano velho que se manterá no próximo. Sou muito grata por isso. Sou muito grata pela capacidade dele de cozinhar todos os dias sem se cansar. E isto não tem nada de superficial porque é disto que os nossos dias são feitos, é de toda a dedicação que é necessária para um ano inteiro de comida saborosa. Um ano inteiro de dedicação que precede mais e mais anos inteiros de dedicação. Haverá alguma coisa mais bonita? É a isto que me refiro quando digo que nos esquecemos dos lugares comuns. Esquecemo-nos quem torna possível a vida que levamos, a saúde que temos e a felicidade que nos enche o peito. Vamos ser mais gratos em 2017 e manter em 2018, pode ser?

Fim de semana

Depois da festa de Natal da empresa, a sexta feira incluiu pequeno-almoco às 11h e almoco depois das 15h. Quando saímos de casa já escurecia. Fomos comprar os últimos presentes por entre uma cidade inundada de pessoas, uma cidade que só vive de inverno. Demos um saltinho a Igls, uma aldeia do outro lado da montanha atrás de casa. Nunca lá tínhamos ido. A aldeia vive do ski e dado que já tinha anoitecido, observava-se um deserto. Havia uma barraquinha com Glüwein, luzes em restaurantes e nada mais. A visita valeu pela vista para Innsbruck, ao subir a montanha. Tantas luzes, que bonito! Voltamos a casa, fizemos jantar e pusemos os presentes na mala. A mala só podia ter 20kg e, no aeroporto, confirmamos que tínhamos 19,8kg de presentes. Jantamos e olhamos para o caos em que a casa estava. Tínhamos feito uma festa em casa no domingo e os móveis mudaram todos de lugar. Nos dois dias anteriores só chegáramos a casa para dormir. As roupas que foram lavadas estavam acumuladas num cesto gigante. As roupas por lavar na casa de banho estavam no mesmo estado. A cadeira que tenho no quarto com roupa estava medonha e havia tralha por todo o lado. O chão precisava de ser aspirado e descobrimos merugem no teto junto à janela. Decidimos ignorar tudo e dormir. O Pedro acordou às 7h, mas só me acordou às 8h. Percebemos que não havia pão em casa e cometemos o luxo de tomar o pequeno almoco na pastelaria. Pagamos oito euros por duas meias de leite, um croissant e um pão com manteiga. O Pedro foi para o autocarro e eu fui espreitar a Primark. Só me apaixonei por velas e, felizmente, nao tinha a carteira comigo. Entretanto fui a casa buscar a carteira, levantei uma encomenda e comprei os postais que me faltavam. Daí fui para casa a desfrutar dos intervalos entre as casas que permitiam que uns raios de sol me chegassem. Despachei camisas que estavam por passar. As camisas sao sempre a maior seca e trabalheira. Lavei duas máquinas de roupa e vi os episódios e podcasts que estavam em atraso. Pus os móveis no lugar, enchi os frascos se sementes e frutos secos, preparei Müsli e limpei o caos em que tinha a cozinha. Decidi não procurar companhia para sair, achei que naquela noite fria não havia nada melhor do que aproveitar o sofá. Assim foi. No dia seguinte continuei na minha rotina preferida de arrumação: com muitas pausas para episódios. Adiei a saída de casa durante o dia todo. Às 17h vesti roupa para correr. Mas decidi ir fazer umas compras que precisava antes. Voltei a casa, corri a casa toda pelo meu relógio, pu-lo no pulso e protegi a cara com a máscara do frio. Qualquer semelhança com um assaltante seria legítima. Saí de casa e estava a nevar. Era uma neve fraquinha e decidi continuar. Aqueci e alonguei. Comecei a correr pelo percurso que previamente delineei. Tinha 4,5km pela frente a um ritmo confortável. Ao final dos primeiros 500m não estava cansada mas tinha vontade de parar. Não parei. Não passei por ninguém até aos 2km. Depois vi pessoas e tive vontade de abreviar o percurso. Mas a verdade é que não estava cansada. Aos 3km tive de tirar a máscara que me estava a aquecer demasiado a cara. Aos 3,5km tive vontade de acelerar, mas não o fiz até aos 4km. Não olhei para o relógio durante toda o percurso, mas fiquei satisfeitíssima quando no fim verifiquei que tinham passado apenas 26 minutos. As corridas sao sempre um desafio psicológico para mim. Tenho sempre vontade de parar porque a corrida é monótona. O maior desafio é mesmo esse. O corpo aguenta mais, pelo menos 7km aguentaria. O problema é ser um processo demorado, é levar muitos minutos seguidos. O que interessa é que ontem foi bom e é muito mais fácil correr com estas temperaturas. O corpo gasta menos energia a arrefecer e canaliza-a na corrida propriamente dita. Corri a um ritmo ótimo para o meu objetivo de 10km em menos de uma hora. E isso fez-me o fim de semana. Depois ainda tive energia para fazer uns bolinhos de batata doce e frango para o almoço do dia seguinte.