Lá em casa

Lá em casa não temos estantes para colocar acessórios de decoração, temos estantes para livros. Lá em casa só temos uma cortina e é para proteger os livros. As restantes deixam entrar o sol e o mar ao fundo. Sempre morei com vista para o mar e só agora notei que ele não acorda todos os dias com a mesma cor. É bom poder reparar nas cores. E as lá de casa trazem um bocadinho do mar para a sala. A cozinha é contra a tendência do branco. E eu adoro o preto! Tem espaço para organizar, para todos os preparados que entendermos, para caixotes grandes de reciclagem. Usamos menos sacos de papel e de plástico e mais de pano. Reutilizamos os sacos das compras, mesmo os transparentes da fruta e dos legumes. Vamos menos ao supermercado e, assim, usamos menos embalagens. Algum do lixo biológico vai para compostagem. Colocamos uma mesa de cabeceira na casa de banho de serviço porque calhou e agora adoramo-la lá. Com uns quantos quadros na parede e ficará perfeita. Há brinquedos em lugares ideais para pessoas de meio metro, e é bom que a criança lá de casa os explore tão bem. No quarto não há mesas de cabeceira e eu adoro dormir de estore aberto para ver o mar ao acordar. Temos uma luz de intensidade variável na casa de banho porque eu sou um bocadinho vampiro e não gosto e luz antes de dormir. O móvel azul da entrada está com preço de pechincha no Ikea porque tem uma cor berrante e ninguém lhe pega. Eu adoro-o cada vez mais. Mas do que mais gosto é de não ter decidido tudo isto de uma vez só. A ideia inicial não seria tão boa! A construção e as ideias novas que vão surgindo fazem muito mais sentido à loucura que passa pelas nossas cabeças.

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Pelos caminhos de Portugal

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Penacova

Há algumas semanas, ao perceber que precisava de férias, pedi ao booking que me arranjasse um pequeno paraíso em Portugal, não muito longe de casa, que me obrigasse a relaxar. Booking, querido, cumprindo a sua função arranjou-me uma solução a pouco mais do 50 euros por uma noite.

A Beira litoral foi a eleita e em dois dias saímos de Espinho com vista em estradas nacionais, passamos pelo Luso, fomos até Penacova e paramos num hotel coladinho ao Mondego.

No dia seguinte, saímos em direção à Praia de Mira e voltamos à nacional, juntinho à praia, até Aveiro.

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Praia de Mira

A região do hotel foi uma das que ardeu no último outubro. No hotel deixaram arder o centro de eventos e as espreguiçadeiras da piscina. Mas o hotel manteve-se intacto e belo. Ao regressarmos a casa, demos boleia a três alemãs que viajavam por Portugal. Elas não conseguiam compreender muito bem o que se passava. No fundo, nenhum de nós o é capaz de o explicar muito bem.

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Jardim do hotel

Tenho tanta curiosidade por estes pequenos paraísos, onde o tempo pára, o trabalho não cabe e as estradas nacionais ganham magia!

[O hotel chama-se Hotel Rural Quinta da Conchada e é bem acessível em época baixa!]

A adrenalina da estreia

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As semanas anteriores à estreia foram estenuantes. O texto da peça não estava totalmente sabido e a lista de afazeres não tinha fim. É o meu ritmo de vida favorito, mas o que me deixa a memória mais pequenina. Na semana da estreia bati records na perda de comboios. Se não era a minha confusão com as horas (e eu sei as horas todas dos comboios), lá me atrasava, ou a linha tinha um carril qualquer partido. Tudo era motivo.

No próprio dia da estreia, saí do trabalho atrasada e não entrei no comboio que precisava. O seguinte tinha como destino a estação anterior à de Espinho e pedi boleia para lá. O telemóvel ficou sem bateria e não havia meios de ver a minha boleia chegar. O comboio para Espinho chegou e eu fui até Espinho. Lá usei um telefone público (acho que só existem para meu uso) e percebi que a tal boleia sempre estivera na estação anterior, mas, por um motivo que ainda me é desconhecido, não a vi.

Em casa passei a ferro a roupa para a peça, mas, mais tarde percebi, ficou em casa. Encomendei pizza para jantar e chegou antes de mim ao auditório. Vim a casa resgatar a roupa, mas não levei as leggings pretas que precisava.

Poderia jurar que não senti stress. Tinha muita vontade de entrar em palco, aliás. Muito mais vontade do que antes. Mas nitidamente que  havia stress, que toda eu era stress. O vinho do Porto com que comemoramos o início do espetáculo talvez tenha ajudado a relaxar e o espetáculo aconteceu sem precalços.

Quanto às leggings pretas, encontrei umas por lá, mas descosidas, de forma que se via o rabo. Entrei em palco assim mesmo, mas de forma a nunca me virar. E foi bem divertido!

Crónica da Lamentação II

Sabem aqueles textinhos sobre pessoas e as suas histórias de vida que escrevia sob a rubrica “A vida não é justa mas não faz mal”? Não têm existido, com muita pena minha, por dois motivos: ora ando tão autocentrada que não vejo o que se passa à minha volta, não ouço, nem presto atenção; ora isso acontece, mas varre-se-me da memória. O cansaço é do caracinhas, é o que é.

Isto leva-me a esta minha mania de acreditar que a omnipresença é possível. No secundário cheguei a combinar três almoços ao mesmo tempo. E desde aí parece que não aprendi. A minha agenda não tem margem para falha. Mas há sempre coisas que falham: se não é um atraso do comboio, é qualquer coisa urgente que se intromete.

Estou num ponto bem masoquista, incapaz de dizer que não a coisa alguma, deixando um projeto ou desafio a meio; e incapaz de responder a tudo. In-ca-paz. Desistir era coisa para me deixar um peso na consciência o resto da vida. Anti-peso na consciência resulta numas olheiras tamanhas, por muito que durma bem e até horas significativas. É um martírio. Pior: um martírio a mim mesma. Se ao menos a coisa se ficasse pela quaresma, menos mal, mas prolonga-se até ao início de Maio, em loop, correria-sono-corria-sono. Pelo meio há mesmo correria, 10km, cujo único treino se faz do metro ao comboio em tempo record. Sanidade, tragam-me sanidade!!!

O espécime da Católica

Hoje falamos sobre estereótipos. Mais concretamente sobre o espécime advogado-que-estudou-na-católica. Ui, amiguinhos, temos aqui pano para mangas!

Como é que me lembrei de falar sobre isto? Como? Tive um formador, um desses espécimes, que se apresentou com tudo a que tinha direito. Se é verdade que nunca o tinha visto à frente, nem ouvido tal nome, 15 minutos depois eu sabia do que se tratava. Se a própria da espécie dos juristas, advogados ou outros que tal se topam ao longe ou, na loucura, após 5 minutos de conversa, o indivíduo particular, representante dos que frequentaram a bela da Universidade Católica, já exige outro tipo de conhecimento.

É importante ter convivido naquele meio. Eu estive lá, eu vi bem do que se tratava. Na minha faculdadezinha, o mítico do Palácio cor-de-rosa, era um pouquito diferente (se bem que quando me ouço, sinto-me bastante mais queque do que me considero, mas enfim), mas se por um qualquer motivo me deslocava à bela da Foz, a aura sentia-se. Uns quilometrozitos de distância e o calibre dos carros era logo outro. Na verdade, tudo nos carros era diferente, desde o brilho que reluziam ao tamanho que triplicava. Bem, acho que os 100 euros a mais que pagávamos no Palácio sobravam para carros. Não estou a ver outra explicação. Além dos carros, as roupas e a voz também se adaptavam. Era como se os lábios levassem com um bocadito de cola nos cantos, o sorriso ficasse deformado e a voz ganhava umas nuance. As roupas levavam ali um boost, a camisa passa a ser engomada com clara de ovo para ficar bem direitinha, a sapatilha é substituída pelo sapato Armani e, por vezes, surge ali uma camisa aberta em cima,  coisa que me dá cabo dos nervos. O próprio do ego dos estudantes era outro, sentia-se o poder, como se fossem acionistas maioritários de uma multinacional milionária.

O que eu não sabia era que tudo isto fosse exatamente igual na Católica da capital. Mas é, deve ser telepatia religiosa, uma Universidade unida pela Igreja. Uma coisa que se transmite pela crença, sabe-se lá!

P.S. – Amiguitos de direito e da Católica, não levem isto a peito. Estou só a brincar!

Opção de Escolha

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A decoração da casa está parada. Percebemos que tínhamos tudo o que precisávamos e estava na hora de investir noutras coisas: em poupanças e em viagens. Temos um monte de molduras e muitas ideias para começar a decorar o branco das paredes, mas há todos os dias tantos afazeres que ainda não dedicamos tempo a isso.

Entre os detalhes em falta, há apenas uma coisa que já deveria ter sido feita. O armário do quarto tem poucos varões e precisa de ser otimizado. Como ainda não está prontinho a receber toda a minha roupa, ainda tenho 80% das minhas coisas em casa dos meus pais. Ontem estava a arrumar a roupa que tenho e não gostei da pouca coisa que tenho por lá. Não que me falte algo, não que precise de mais roupa do que a que tenho usado, mas gosto de ter opção de escolha. A minha criatividade precisa de opções.

Gosto de ter mais do que um caminho como opção, mesmo que escolha o mesmo quase todos os dias. Mas a ideia de poder decidir e mudar de quando em vez é bom, sabe-me bem e tira-me do aborrecimento da rotina. Gosto de ter tintas de várias cores, livros de vários estilos, malas de várias cores. Gosto de ter diferentes opções no frigorífico e várias cores na caixa de vernizes, ter diferentes tecidos e linhas de todas as cores. Nunca tinha pensado nisto, mas concluo que por muito que acabe a ter rotinas bastante rígidas, ter opção deixa-me mais realizada. Acho que a opção permite-me ter vibes criativas tantas vezes quantas quiser. E isso é bom!