Crónica da Lamentação II

Sabem aqueles textinhos sobre pessoas e as suas histórias de vida que escrevia sob a rubrica “A vida não é justa mas não faz mal”? Não têm existido, com muita pena minha, por dois motivos: ora ando tão autocentrada que não vejo o que se passa à minha volta, não ouço, nem presto atenção; ora isso acontece, mas varre-se-me da memória. O cansaço é do caracinhas, é o que é.

Isto leva-me a esta minha mania de acreditar que a omnipresença é possível. No secundário cheguei a combinar três almoços ao mesmo tempo. E desde aí parece que não aprendi. A minha agenda não tem margem para falha. Mas há sempre coisas que falham: se não é um atraso do comboio, é qualquer coisa urgente que se intromete.

Estou num ponto bem masoquista, incapaz de dizer que não a coisa alguma, deixando um projeto ou desafio a meio; e incapaz de responder a tudo. In-ca-paz. Desistir era coisa para me deixar um peso na consciência o resto da vida. Anti-peso na consciência resulta numas olheiras tamanhas, por muito que durma bem e até horas significativas. É um martírio. Pior: um martírio a mim mesma. Se ao menos a coisa se ficasse pela quaresma, menos mal, mas prolonga-se até ao início de Maio, em loop, correria-sono-corria-sono. Pelo meio há mesmo correria, 10km, cujo único treino se faz do metro ao comboio em tempo record. Sanidade, tragam-me sanidade!!!

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O espécime da Católica

Hoje falamos sobre estereótipos. Mais concretamente sobre o espécime advogado-que-estudou-na-católica. Ui, amiguinhos, temos aqui pano para mangas!

Como é que me lembrei de falar sobre isto? Como? Tive um formador, um desses espécimes, que se apresentou com tudo a que tinha direito. Se é verdade que nunca o tinha visto à frente, nem ouvido tal nome, 15 minutos depois eu sabia do que se tratava. Se a própria da espécie dos juristas, advogados ou outros que tal se topam ao longe ou, na loucura, após 5 minutos de conversa, o indivíduo particular, representante dos que frequentaram a bela da Universidade Católica, já exige outro tipo de conhecimento.

É importante ter convivido naquele meio. Eu estive lá, eu vi bem do que se tratava. Na minha faculdadezinha, o mítico do Palácio cor-de-rosa, era um pouquito diferente (se bem que quando me ouço, sinto-me bastante mais queque do que me considero, mas enfim), mas se por um qualquer motivo me deslocava à bela da Foz, a aura sentia-se. Uns quilometrozitos de distância e o calibre dos carros era logo outro. Na verdade, tudo nos carros era diferente, desde o brilho que reluziam ao tamanho que triplicava. Bem, acho que os 100 euros a mais que pagávamos no Palácio sobravam para carros. Não estou a ver outra explicação. Além dos carros, as roupas e a voz também se adaptavam. Era como se os lábios levassem com um bocadito de cola nos cantos, o sorriso ficasse deformado e a voz ganhava umas nuance. As roupas levavam ali um boost, a camisa passa a ser engomada com clara de ovo para ficar bem direitinha, a sapatilha é substituída pelo sapato Armani e, por vezes, surge ali uma camisa aberta em cima,  coisa que me dá cabo dos nervos. O próprio do ego dos estudantes era outro, sentia-se o poder, como se fossem acionistas maioritários de uma multinacional milionária.

O que eu não sabia era que tudo isto fosse exatamente igual na Católica da capital. Mas é, deve ser telepatia religiosa, uma Universidade unida pela Igreja. Uma coisa que se transmite pela crença, sabe-se lá!

P.S. – Amiguitos de direito e da Católica, não levem isto a peito. Estou só a brincar!

Opção de Escolha

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A decoração da casa está parada. Percebemos que tínhamos tudo o que precisávamos e estava na hora de investir noutras coisas: em poupanças e em viagens. Temos um monte de molduras e muitas ideias para começar a decorar o branco das paredes, mas há todos os dias tantos afazeres que ainda não dedicamos tempo a isso.

Entre os detalhes em falta, há apenas uma coisa que já deveria ter sido feita. O armário do quarto tem poucos varões e precisa de ser otimizado. Como ainda não está prontinho a receber toda a minha roupa, ainda tenho 80% das minhas coisas em casa dos meus pais. Ontem estava a arrumar a roupa que tenho e não gostei da pouca coisa que tenho por lá. Não que me falte algo, não que precise de mais roupa do que a que tenho usado, mas gosto de ter opção de escolha. A minha criatividade precisa de opções.

Gosto de ter mais do que um caminho como opção, mesmo que escolha o mesmo quase todos os dias. Mas a ideia de poder decidir e mudar de quando em vez é bom, sabe-me bem e tira-me do aborrecimento da rotina. Gosto de ter tintas de várias cores, livros de vários estilos, malas de várias cores. Gosto de ter diferentes opções no frigorífico e várias cores na caixa de vernizes, ter diferentes tecidos e linhas de todas as cores. Nunca tinha pensado nisto, mas concluo que por muito que acabe a ter rotinas bastante rígidas, ter opção deixa-me mais realizada. Acho que a opção permite-me ter vibes criativas tantas vezes quantas quiser. E isso é bom!

Marionetas, Macbeth e Stand Up

Um dos objetivos a cumprir depois de regressar a Portugal era voltar a ir ao teatro. Muitas vezes, muitas mais vezes. Porquê? Porque a língua portuguesa é boa demais para não ser aproveitada. E em teatro eu acho que a língua tem uma outra dimensão, transporta-nos entre as palavras de uma forma que nenhuma outra expressão artística o faz. A verdade é que não tem sido tão simples como idealizava. Ora é o tempo que corre, ora não dá jeito ir a Lisboa, ou quando dou por ela o espetáculo já esgotou.

No entanto, nas últimas duas ou três semanas demos-lhe forte. Começou com a estreia do Mar-Marionetas, andava há um par de anos a querer ir e nunca era possível. Fui desta e gostei mesmo muito (é em Espinho e o festival ainda está a decorrer).

Depois foi a vez do Macbeth. Queria muito ver a peça por dois motivos: é um clássico de Shakespeare e gostava de ver a interpretação num cenário bem simples e contemporâneo. Queria tanto que embora nos tenhamos esquecido da data do espetáculo que marcamos (coisas desta vida ocupada), compramos novos bilhetes para o Teatro Nacional de São João. Acho que faltou um bocadinho de ritmo no início da peça, mas é sempre ver bons atores em palco. Foi giro, a adaptação para português é boa e agora conheço a história do princípio ao fim.

Ontem à noitinha, quinta-feira, quando cheguei a casa, eram quase 21h, jantamos e enfardamos um episódio de 1986 (a série do Markl que nos deixa nostálgicos, mesmo tendo nascido depois de 1986). Já estava enrolada na manta e custou arrancar o corpito de lá. Mas pronto, saí de casa em direção ao Porto. Fomos a um barzinho na batalha ver stand up, chama-se Hot Five e a música é boa, boa!

Bem, naturalmente que hoje fui duro arrancar-me da cama, mas diverti-me tanto que valeu a pena! Entretanto, estou a dever umas horas ao cinema, mas a televisão lá de casa tem Netflix e as minhas 3 horas livres por semana são passadas em frente a ela.

A crónica da lamentação

Segunda feira e a CP esteve em greve. Não faço ideia porquê, já me desinteressei. Garantem serviços mínimos, meia dúzia de comboios de manhã, outra meia dúzia à tarde. Fui para o único comboio das 8 entre os 4 existentes. Juntaram-se pessoas de 4 comboios e o comboio virou lata, mais ou menos como se fôssemos postas de atum bem comprimidinhas. Quando parecia estar cheio o suficiente, há mais alguém que decide não esperar, usufruir do direito que tem em usar o comboio e mergulhar para o meio da multidão. Mais ou menos como se não houvesse mais ninguém. Quem lá está dentro, amassa um bocadinho mais contra os restantes, e enquanto o espaço livre se multiplica, o espaço corporal diminui. Saí do comboio com meia dúzia de dores, mas sobrevivi.

Depois terça. O cansaço já rala o corpo. Corre-se uma vida inteira num só dia. Aparentemente, está tudo encolhido com frio, não se cumprem prazos. Salvam-se umas lágrimas, decoram-se uns textos e imaginam-se figurinos. A noite chegou e eu atiro o cansaço para a cama. Já é quarta feira e eu sinto-a como sexta. Não será mesmo sexta?

Planos para 2018

Não percebo a ideia do calendário dizer que já é março. Não é, pessoas, não é março. Já comprei voos para as férias de verão e isso será daqui a uma eternidade. Há uma grande festa por organizar e ainda falta uma eternidade. Tenho mil ideias para pôr em prática em casa e espero bem que falte uma eternidade até março porque, nesse caso, há demasiadas paredes em branco nesta casa.

Negações à parte, estou um bocadito assustada com esta mania do tempo passar rápido. Tenho passado 55 horas da minha semana em modo trabalho, com concentração elevada e desgaste prolongado. Esta intensidade varia entre uma felicidade desmedida por gostar tanto das várias tarefas e atividades da minha semana e um corpo de rastos. É verdade que a minha alimentação degradante e a falta de exercício têm potenciado este estado. Mas não se preocupem, nada temam, até daqui a um mês o trabalho é exaustivo, correrei 10km e a peça de teatro estreia. Coisita pouca!!

No entretanto, adorava escrever diariamente aqui. Com isto quero dizer que adorava prometer lamentar-me como se não houvesse amanhã de tudo o que não consegui fazer durante o dia, mas duvido que seja capaz de manter tal cadência. Por isso, a única coisa que prometo é que ao vir cá, será para lamentações. Espero que estejam bem com isso.

Por tudo isto, ouço em loop a música acima. Ela própria é um lamento, mas tem uma vibe tremenda e a voz do Veloso a trazer-lhe magia!

Há dois meses em casa

Uma casa nova é sempre um entusiasmo novo. Pensa-se no que se gosta, no que é mais funcional, onde se quer gastar dinheiro e onde não nos importamos de poupar. Lá em casa já temos tudo o que precisamos há dois meses. Entretanto topamos um ou outro ponto menos funcional e já andamos a planear alterações. Dominamos uma série de artes desconhecidas até então: desde a aplicação de candeeiros, aos  furos na parede e em madeira, ou mesmo como é que se abre um casquilho de uma lâmpada.

É pena não restar muito tempo livre para mais. Há uma ou duas paredes a pintar, um quarto cheio de tralha por arrumar e muito por otimizar. Mas falta o tempo. Não dá para saltar as tarefas básicas de roupa, comida e limpeza. E isso é uma verdadeira chatice e consumo de tempo. Enfim, adultez!

Há vontade de encher paredes de ilustrações e fotografia. Temos algumas coisas pensadas, mas falta a ação. Deixo-vos um pequenino vídeo dos locais onde passamos mais tempo e onde, nitidamente falta muita vida e alguns móveis. Mas lá chegaremos!